Texto para o livro da PANAMAZÔNIA*


1. José da Silva Seráfico de Assis Carvalho. 23 de abril de 1942. Belém, Pará. Pai: João Baptista Seraphico de Assis Carvalho e Oneide da Silva Seráfico de Assis Carvalho. Advogado e professor.

2. Minha família paterna tem origem em Palmares, PE. No século XIX, emigrou, distribuindo-se por vários Estados brasileiros. Hoje, há Seráfico Dantas no RN, Seráfico da Nóbrega na PB, Seraphico de Souza no RJ, Seraphico de Assis Carvalho em SP, Serafico Peixoto no ES. É possível encontrá-los em outros Estados, nas diversas regiões do País. Inoccencio Seraphico de Assis Carvalho foi presidente da Província da Paraíba.

A família materna procede de Sobral, CE. Meu avô materno fugia à seca, no final do século XIX. Viria para os seringais do Acre, mas ficou em Belém. Trabalhou na Estrada de Ferro de Bragança.

Os membros da minha família que mais pesaram na minha formação, além dos pais, foram dois tios maternos - Orlando Sampaio Silva e Luiz Osíris da Silva, ambos advogados, ambos professores universitários e emigrados para São Paulo. Com o primeiro sempre tive contato mais próximo eis que o outro cedo (1948) saiu de Belém. Com Orlando, professor universitário aposentado UFPA) ainda hoje tenho contato frequente, via e-mail.

3. Minha formação sempre esteve ligada ao ensino público: primário, da 2ª à 5ª série (porque me auto-alfabetizei e ingressei no sistema escolar na 2ª série, aos 7 anos) no Grupo Escolar Pinto Marques, Belém, PA; secundário, no Colégio Estadual Paes de Carvalho, 1953-1960; Superior, na Faculdade de Direito da UFPA, de 1961-1965.

Na escola primária, minhas referências foram as professoras Dolores Falcão Barral, da 2ª série, e Dulce Ferreira Esteves, 4ª série. Na escola secundária, Maria Anunciada Chaves, de História do Brasil, e Acy de Jesus Barros Pereira, de Português. Marcaram-me na Faculdade os professores Daniel Coelho de Souza, Edgard Olintho Contente e Otávio Mendonça.

A professora de História estimulou-me a estudar a matéria pela preocupação em encontrar os fundamentos do fato histórico, sem excessiva preocupação com datas e nomes, mas com o contexto em que ocorreram. A Acy Barros Pereira devo o interesse pela língua e pelas letras em geral. O gosto pela leitura foi-me ensinado por ele. E também do escrever corretamente.

A fluência e a clareza de Daniel e de Otávio me orientaram na vida do magistério. A Edgard Olintho Contente devo o gesto de grandeza de se ter recusado a pronunciar o discurso de paraninfo, quando o nosso orador da turma Alceu de Amoroso Lima, dos bacharéis em Direito de 1965, foi impedido de falar. Também tive do professor Edgard Olintho Contente, então juiz do trabalho em Manaus, carinhosa acolhida, quando me transferi para Manaus (agosto de 1966).

Marcante na minha infância foi a dedicação dos meus pais, que em sua pobreza souberam criar nove filhos e nos dar a arma do saber, para o enfrentamento do mundo. Nunca nos faltou o carinho de qualquer deles. Também desde cedo aprendi a valorizar pouco os bens materiais, antes preferindo cultuar e cultivar valores éticos e morais. Criança, jovem e adulto, sempre ouvi de meu pai: jogar-se contra o fraco é revelar covardia; lutar contra o poderoso é sinal de coragem. Também que mais vale um gosto que seis vinténs e a mão direita deve dar, sem que a esquerda o saiba. Procuro ser fiel a esses ensinamentos e segui-los como bússolas de minha conduta.

Nascido na Amazônia, de pais paraenses, constitui família amazônica, pois casei com acreana e tenho filhos amazonenses, e netos (Lucas, Nicole, Matheus e Ian), também, salvo o primeiro, nascido em Brasília.

Quando pós-graduado na EBAP/FGV, poderia ter ido para o Maranhão, Florianópolis ou ficar no Rio de Janeiro. Preferi voltar, pois aqui é o lugar a que devo servir. Afinal, os recursos dos que moram aqui custearam os meus estudos.

4. Para quem jamais pensou antes em ser professor, mudar de profissão (depois de rápida carreira na advocacia, que se anunciava próspera ) e ministrar aulas consistia em mudança radical. Mas pareço não me ter dado mal, tantas as amizades e o respeito colhidos. Embora suspeite de que viveria bem em qualquer lugar, do País e do Mundo, sinto-me à vontade e comprometido com as causas coletivas da Amazônia. Sem ufanismo, alimento a crença de que aqui estão algumas das soluções para muitos dos problemas enfrentados por boa parte da população do Planeta. Falta entendermos que, mundo diferente, a região exige percepção e ações correspondentes a essas diferenças.


5. Viver na Amazônia, para mim, é como viver em qualquer lugar da Terra. Basta compreender o caráter altamente gregário do ser humano e ser dotado da sensibilidade necessária à compreensão das diferenças e das necessidades humanas. Talvez por isso, empenho-me em fazer e manter amigos. Sabendo-os leais e sendo leais para com eles, só tenho aprendido e deles recebido as melhores provas de solidariedade. Muitos, se não todos, me têm obsequiado com sua compreensão, sua tolerância e apoio, que seria injusto nomear apenas alguns. Temo qualquer traição da memória que me torne injusto ou descortês.

Onde quer que viva, espero sempre perceber os fenômenos e a realidade social como a percebem os que participam do cotidiano da sociedade local. Daí a minha perfeita integração à sociedade amazonense, de que me sinto um membro em tempo - ponha tempo nisso! - integral.

6. Para quem, aos 22 anos de idade, foi encarcerado em estabelecimento militar, dificilmente haverá outro momento mais desafiador. A superação vem com o tempo, bastando que se saiba resistir aos primeiros momentos. Foi o que aconteceu comigo. Num certo sentido, isso é dito em meu livro inaugural (Memórias talvez precoces, Editora CEJUP, Belém-PA, 1992).

7. Dirigindo há 19 anos a Fundação Amazônica de Defesa da Biosfera- FDB, faço-o por acreditar que lá podemos fazer melhor o que outros têm tentado. Dedicando-nos a gerir recursos destinados à produção, difusão e publicação de conhecimento, participamos de atividades essenciais - mas nem por isso justamente valorizadas - para a superação de muitas das mazelas com que convive a Amazônia.

8. Minha visão de mundo tem muito a ver com o fato de viver na Amazônia, sim. Meu cotidiano e o caldo de cultura em que estou imerso é o daqui. Logo, é grande o cuidado em não me deixar imbuir de certa auto-comiseração que nos transforma em coitadinhos, sempre à espera do favor ou do calor oficial. Não vejo saída para o Mundo, enquanto a competição roubar espaços à colaboração, o egoísmo sobrepujar a solidariedade, a ganância vencer a austeridade, a acumulação tripudiar sobre a fruição da vida. Por isso, acho que só haverá paz duradoura e benéfica à sociedade, quando vivermos numa Terra sem fronteiras, em que todos sejamos irmãos, os que têm mais abdicando em favor dos que têm pouco, as nações se complementando, todos usufruindo dos bens de que a inteligência e o engenho humano são capazes. Fora disso, é como se vivêssemos nas mesmas condições em que vivem os animais ditos inferiores, uns comendo os outros e condenando-os aos piores sofrimentos, a morte o último deles.

DESAFIOS E SOLUÇÕES

Todo aquele que não identifica nos problemas desafios à sua percepção e inteligência, não faz mais que perder tempo. Daí que percebo cada obstáculo como a oportunidade de aprender e dedicar-me à busca de superá-lo. É certo que nem sempre as soluções são encontradas, tanto quanto, se encontradas, não são de todo aplicáveis ou, quando o são, não resolvem em definitivo os problemas que as ensejaram.

É habitual lermos e ouvirmos que a distância que Manaus guarda dos grandes centros produtores e consumidores do País respondem pela maior parte das dificuldades experimentadas aqui. Por ser um truísmo, tal constatação merece ser recebida com a expressão de um professor da Universidade Federal do Amazonas : Manaus está onde sempre esteve.

Com essa expressão, nosso colega quer dizer que a localização da cidade não pode ensejar queixas ou desconforto. Admitir ambos seria descaracterizar o problema, eis que estamos diante apenas de um dado da questão. Ela traz consigo, portanto, o desafio de oferecer resposta que reduza o impacto da distância na vida social. A recusa a ver assim implica por em dúvida a inteligência humana, a que geralmente se atribui a superioridade sobre os outros animais da natureza.

Seguindo essa linha de raciocínio, penso que o maior desafio imposto à Amazônia centra-se na falsa esperança de que há solução individual para nossos problemas coletivos. É como se devêssemos esperar a descida de um anjo vingador, capaz de transformar nossas mazelas em bem-estar, nossa fome em maná que a todos saciará.

Em outras palavras: o desafio consiste em bem identificarmos nossos problemas e sermos levados a pensá-los como fruto das relações sociais estabelecidas - e cuidadosamente preservadas. Será sempre a luta entre os que defendem e os que abjuram o status quo. O problema anterior, portanto, se desdobra e nos apresenta outro: como - e em que espaço - identificar, priorizar e achar meios de solucionar nossos problemas de forma coletiva?

Há uma só resposta, penso eu: agindo na esfera política, porque se trata de por em confronto os objetivos, experiências, ideias e crenças marcadas pela rica diversidade. Se é assim, um novo desafio se nos apresenta - o de estabelecer clima adequado à discussão profunda e séria dos problemas e das próprias relações humanas que os rodeiam.

Se observarmos as políticas públicas formuladas e postas em vigor, facilmente verificaremos que elas só são públicas quanto à fonte de onde formalmente emanam. Sequer sua inspiração procede do interesse público. Raramente ou jamais os resultados de tais políticas contemplam a coletividade, ajustando-se muito mais a beneficiar segmentos específicos da sociedade, geralmente próximos do poder.

A quem poderemos atribuir responsabilidade (para não dizer culpa) por esse fato? Certamente pessoas é que decidem e agem, mas dizer isso seria ficar pelo meio do caminho. Tais pessoas são produto de caldo de cultura construído com material egoístico, avesso a qualquer sentimento de solidariedade, como se espera de tudo que envolva uma sociedade minimamente saudável.

São copiosos os exemplos desse comportamento danoso ao equilíbrio social, a despeito de vivermos um tempo em que ele torna as cidades mais violentas, mostra desprezo pela vida, acumula bens materiais exageradamente, desrespeita o direito de terceiros, depreda os bens públicos, atenta contra a natureza...

Tal experiência não se circunscreve à Amazônia, nem ao Brasil. Muito menos à Panamazônia. Ela se reproduz por todos os continentes, tocada por valores há muito e tão fortemente impostos pelas relações entre seres humanos. Qualquer prescrição só fará sentido se, respeitadas as potencialidades de cada grupo humano, país ou nação, caminharmos no sentido de uma sociedade fraterna. Também globalizada, como o são os negócios contemporâneos, tal sociedade se sobreporá às fronteiras físicas e aos mapas, para constituir uma Terra de todos.

Talvez essa não seja tarefa para a nossa e as duas próximas gerações- se antes não chegarmos à hecatombe a que nos leva o sistema atual. É possível, porém, darmos o primeiro passo. No caso específico da Amazônia Brasileira, aproximando-nos cada dia mais dos nossos irmãos hispânicos e das demais nações integradas na Panamazônia, formando bloco cujo peso político amplie nossa voz e faça repercutirem nossas iniciativas.




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