Tenhamos esperanças - e sonhos

No primeiro dia de um ano cuja novidade ainda é incerta, é preciso atentar para particularidades vinculadas à experiência do ano anterior. Se alguns têm chances de aproximar suas previsões da realidade a ser vivida, certamente serão os menos informados. As coisas não estão tão fáceis, como não tem sido fácil ver morrerem quase 200 mil pessoas e certa parte da população - frequentemente induzida por governantes - ligar pouco para isso. Ou seja, as políticas públicas marcadas por flagrante necrofilia conta com a adesão, o aplauso e a cumplicidade de boa parte dos brasileiros. Soa hipócrita a manifestação do desejo de feliz ano novo. A não ser, é óbvio, pelos que ganham com o luto alheio. Ou pelos que veem prazer na eliminação de tantos dos seus semelhantes. Daí sermos obrigados a encontrar outras palavras para manifestar os sentimentos que julgamos adequados à saudação deste Dia da Confraternização Universal. Esta, igualmente, comemoração algo estranha, se confrontada com o ambiente construído, espalhado, defendido e mantido pela sociedade que o construiu. Se há sol no firmamento, em torno do qual rodamos permanentemente, tudo temos feito para impedir que o sol ilumine nosso interior. Dentro de nós se vai instalando uma noite de cujo fim ninguém pode dizer nada. Não é, igualmente, de irmãos uma sociedade tão injusta e desigual quanto a de que somos partícipes e protagonistas. A retórica não consegue suplantar a realidade das relações humanas, ainda mais se tomarmos a primeira década do terceiro milênio como referência. É sobre esse terreno devastado por todo tipo de ação deletéria que iniciaremos o primeiro ano da segunda década. Nem sequer caberia falar-se em Universal, ignorada até agora a existência de outros seres a que poderemos chamar humanos, semelhantes nos outros planetas e galáxias. Por isso, fugirei ao jargão convencional e não repetirei o surrado feliz e próspero ano novo. Antes, prefiro desejar que todos tenhamos devolvidas as esperanças roubadas no infeliz e tenebroso 2020 que ontem se foi. Se for possível alimentar sonhos - e sempre o será - que todos eles se dirijam à realização daquilo que em tempos de esperança terá passado pela nossa cabeça. E que, sobretudo, sejam removidos em 2021 todos os obstáculos à concepção e realização de novos sonhos.

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