Teimosia

Quando a mentira ou a ignorância é usada para obter a adesão da população, os governos atentam contra a democracia. Esta não pode manter-se, se a verdade cede lugar à mentira e os propósitos nada têm de benéficos à maioria da população. Quando elas se combinam, pior ainda. Quanto à ignorância, é fácil recomendar que seus portadores recorram ao estudo e às fontes insuspeitas de informação, por menos numerosas que elas sejam. Já a mentira e a preferência por ela exigem esforços multiplicados. Neste caso, manifesta-se o íntimo mais profundo dos indivíduos, onde repousam sentimentos e propósitos nem sempre postos à luz do sol. Talvez um especialista em Psicologia dissesse que somente Freud explica.

É certo que a ignorância muitas vezes decorre da escolha pessoal do que a ostenta. Porque se beneficie dessa circunstância, ou porque em seu egoísmo não cabe a menor consideração sobre o sofrimento imposto aos outros. (Ah, haverá sempre os outros, em que cada um vê o demônio!)

Também não se pode duvidar das promessas que o desvio da verdade encerra, mesmo para os que têm o dever de produzir e divulgar informações que interessam ao distinto público. (Aqui, a expressão não esquece quanto vivemos num circo sem lona, no qual não faltam palhaços e feras, gaiatices e urros, picadeiro e variada acrobacia).

É preciso, porém, exigir um mínimo de coerência. Fazer aquilo que se diz deva ser feito; defender pontos de vista sem medo do patrulhamento que anuvia a paisagem democrática; assumir as consequências de nossas próprias ações.

Evidencia-se, então, que estou falando do que os tolos chamam utopia. Mas a democracia jamais terá fim, exatamente porque, uma vez alcançada, o ser humano sempre a desejará mais profunda, mais forte, mais promissora. E está na promessa a grande virtude da utopia. Não fosse outra a razão, porque nenhuma palavra e conceito me parece tão vinculada à utopia, quanto o termo promessa. Leonardo da Vinci, Thomas Morus, Ghandi, Jesus e tantos outros anunciaram um mundo bom, em que todos os seres humanos seriam irmãos, a natureza não despertaria apetites sórdidos, não estimularia ações marcadas pela torpeza. O homem, então, revelaria sua pretendida superioridade. Aí, sim, estaríamos todos perseguindo a verdadeira utopia - esse lugar a que ainda não chegamos...Nada além e aquém disso. Seguir o caminho que leva a ela, a utopia a que jamais chegaremos, deve ser nossa missão.

Desculpem-me a teimosia.



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