Surreais - é o que somos?


Pode-se reclamar de muita coisa na política do Brasil, menos de tédio. A indiscutível criatividade de que somos dotados parece manifestar-se com maior vigor e variedade no palco da política. Talvez porque ainda não tenhamos chegado ao momento em que será possível escrever a palavra iniciando por letra maiúscula: Política. Sendo a maioria dos protagonistas dotada de valores, propósitos e práticas minúsculas, impossível esperar deles algo diferente.

Há, contudo, uma compensação para o baixíssimo nível dessa maioria: a alegria reconhecida e apontada praticamente por todos os outros povos como característica da nossa gente. E é inesgotável. Diante do farto material fornecido pelo cotidiano, não há como perder ou comprometer a criatividade também a nós atribuída.

Ainda não foram completados 18 meses de um novo período presidencial, já acumulamos experiência que nenhum dos governos anteriores colocou em nossa caixa de matéria-prima. É verdade que muito desse material era conhecido desde que identificados os postulantes ao posto maior da hierarquia administrativa nacional. No caso específico do vencedor nas urnas, quase três décadas de vida política inútil, ociosa, rotineira, não bastaram para simular, ao menos, a presença da reconhecida capacidade criativa do eleito. No sentido de propostas para resolver nossos mais graves e urgentes problemas, tanto quanto para consolidar e ampliar o prestígio internacional já conquistado. Nesse caso, porém, a compensação vem da absoluta ignorância do Presidente, do círculo que o acolita e do rebanho que o segue seja quanto às funções e responsabilidades de um Chefe de poder republicano, seja quanto aos limites impostos à sua ação.

É daí que vem a provocação logo detonadora do rico exercício da criatividade. Também da transformação da observação em motivo de esfuziante alegria. Somos, realmente, o país da piada pronta.

Onde seria admitido de um mandatário popular justificar o uso de dinheiro do povo, para comer gente? Essa foi, no entanto, a resposta dada pelo ex-deputado Jair Bolsonaro, a propósito da gratificação de moradia, quando tinha casa própria em Brasília. O que aconteceria em países que se fazem respeitar, se o Presidente confundisse a Constituição com ele próprio? A expressão eu sou a Constituição, se não foi dita para desatar risos, não sei mais a que se destinaria. Da absoluta ignorância do Presidente quanto às regras da República e do Estado democrático de Direito, ninguém dúvida.

Para rir, mais que chorar, a apreensão de 39 kg de cocaína em avião de uma comitiva oficial à Europa dá pistas para a curiosidade que o acúmulo de indícios oferece do lamaçal em que nossa infelicitada nação mergulha.

Sem a intenção de exaurir o elenco de material disponível à criatividade dos que sabem fazer limonada do limão ganho, indicaremos alguns. (Talvez fosse mais apropriado falarmos de laranjas e laranjada).

1. Decreto protetor dos responsáveis pela morte de vítimas da covid-19. Uma espécie de salvo-conduto, capaz de beneficiar a ladroagem de recursos destinados ao combate à pandemia.

2. O controle as Polícia Federal, para fazer dela milícia de defesa de familiares e amigos do Presidente.

3. A transferência da Comissão de Avaliação de Operações Financeiras – COAF, para proteger sua corriola, e evitar o prosseguimento de investigação contra familiares.

4. A constituição de redes de informação paralela, tanto para obter informações pessoais dos cidadãos, quanto para disseminar inverdades proveitosas aos seguidores do líder.

5. A retirada dos radares que controlam a velocidade de veículos automotores nas estradas brasileiras.

6. O estímulo ao suicídio coletivo, induzindo e convocando a população ao risco de contrair a covid-19.

7. A participação em movimentos de rua que reivindicam o fechamento do Congresso e do Poder Judiciário.

8. O vai-e-vem quase diário, na tomada de decisão. O Decreto da manhã de um dia às vezes não dorme Decreto. A revogação veio antes.

9. A edição de atos oficiais em flagrante desobediência aos ditames constitucionais.

10. A constituição de base de apoio parlamentar com membros das Casas Legislativas sendo processados pela Justiça ou sob investigação policial.

11. A troca de dois Ministros da Saúde em plena crise sanitária, de que já resultou a morte de mais de 50 mil pessoas.

12. O envolvimento com o crime organizado, de que a intimidade e a solidariedade a membros de milícias particulares é o atestado.

13. As dúvidas sobre cada dia crescente número de eventos carentes de criteriosa averiguação: a morte da vereadora Marielle; a facada sofrida em Juiz de Fora, quando Bolsonaro era candidato; a produção de cloroquina em laboratórios do Exército, ora sob investigação promovida pelo Tribunal de Contas da União.

14. A aprovação com 15 reservas das contas do primeiro ano de governo.

15. As agressões reiteradas contra os meios de comunicação e os profissionais que não se prestam ao papel de relações públicas do governo.

16. A intenção de militarizar escolas o ensino fundamental país afora.

17. A fragilização dos órgãos que protegem o meio ambiente e os recursos naturais, em nível nacional.

18. A autorização para o porte de armas e seu uso, sob o pretexto de legítima defesa, quando as ações violentas praticadas por policiais diariamente são reiteradas, país adentro.

19. As falcatruas em que se têm envolvido membros da família do Presidente, todas elas

contando com o aplauso e a defesa do Chefe do Executivo.

20. O declarado amor à tortura como método e instrumento de governo.

21. A entrega da Base de Lançamento de Foguetes de Alcântara, no Maranhã, ao governo dos Estados Unidos da América do Norte.

Ainda assim, Jair Messias Bolsonaro recebeu quase 58 milhões de votos, nas eleições de 2018. Porque o Poder Judiciário se fez respeitar e, a bem da verdade, sua eleição não foi contestada, o absurdo se fez Presidente. À moda de seu ídolo político, um cabo austríaco que chegou à Presidência da Alemanha, joga-se hoje contra as instituições democráticas. E pretende fazer da Constituição de 1988, chamada cidadã, o mesmo que o füehrer fez com a Constituição de Weimar.

Nosso problema é saber o que somos: destituídos de uma gota sequer de inteligência? Detentores de alto nível de ignorância, política não só? Perversos tanto quanto nossos líderes? Apenas surreais? Neste caso, devemos pedir desculpas a Salvador Dali. A lista acima pode ser enriquecida, como sabem todos!

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