Subsídios à história da Antropologia Brasileira

Acabo de ler Os primórdios da Antropologia brasileira. Integrante da coleção Jornadas Antropológicas, do Programa de Pós-Graduação em Cartografia Social e Política da Amazônia, o libreto (98 páginas) pretende ser uma descrição sincrônica da produção antropológica nas terras de Pindorama. Trata-se da abertura da coleção, promovida pela Universidade Estadual do Maranhão, e traz a autoria do festejado antropólogo Roque Laraia.

Segundo o editor, Alfredo Wagner Berno de Almeida (dos quadros docentes da Universidade do Estado do Amazonas), o trabalho...perscruta a história social deste campo com informações acuradas e um notável refinamento analítico... É o que se lê à página 7 (Nota prévia do editor).

Leigo no campo de conhecimento específico que recheia o trabalho, nem por isso meu faro de leitor interessado deixa passar certos aspectos – omissões, sobretudo – que penso terem lugar assegurado em obras de semelhantes propósitos, ainda mais se voltados para a reconstrução da trajetória da Antropologia no País.

Não ignoro o caráter seletivo de nossa memória. Menos, ainda, de quanto a memória (escrita ou guardada nos escaninhos do cérebro humano) ajuda na compreensão dos fenômenos históricos com os quais lidamos ou dos quais tivemos conhecimento. Isso não basta para admitir certas ausências, especialmente quando responde pelo trabalho um dos mais respeitados e competentes antropólogos brasileiros.

Discutir a importância da obra e de seu conteúdo parece-me impossível. A oportunidade em que surge, menos ainda. Quem nos dera o mesmo fosse empreendido em outros campos e áreas da produção intelectual de tantos outros estudiosos do Brasil, de suas coisas, de suas terras e de sua gente!

A lembrança da obra No pacoval do Carimbé, de Bastos de Ávila, por exemplo, como destacado pelo editor, é informação preciosa, a que não podem virar as costas os interessados na matéria. Também a intensa participação de muitos dos profissionais que produziram, divulgaram e defenderam a formação dos antropólogos, sem descurar da contribuição dada à compreensão da sociedade brasileira, em todas as suas nuances.

Aqui, exemplificarei a omissão, mencionando nomes que, a meu critério, não poderiam faltar em obra de tamanha envergadura. Não serve a escassez de páginas para justificar a ausência, verbi et gratia, de Inocêncio Machado Coelho, Nunes Pereira, Frederico Barata, Orlando Sampaio Silva, Roberto Maria Cortez de Souza, Raimundo Heraldo Maués, Isidoro Maria Alves, Napoleão Figueiredo, além de outros que talvez escapem à percepção deste pobre autor de textos sem-valia. (Minha memória também é seletiva).

Machado Coelho, um dos fundadores do Instituto de Antropologia e Etnologia do Pará, junto com Manuel Nunes Pereira, Armando Bordalo da Silva, Eurico Fernandes, José Coutinho de Oliveira e Paulo Maranhão Filho, também dirigiu o Museu Paraense Emílio Goeldi. Em muito se deve a ele e a seus companheiros de sonhos o incentivo à pesquisa antropológica na região. Também foi durante sua administração criado o boletim do MPEG, indiscutivelmente um importante meio de divulgação do trabalho dos mais antigos antropólogos, do Pará, da Região Amazônica e do Brasil.

Moronguetá - um decameron indígena, de Nunes Pereira, tem sido cantado em prosa e verso, e não será pelos belos olhos do autor. Autor também de Os índios maués Nunes Pereira tinha naquela obra um conjunto monumental de pesquisas, como o diz o prefaciador dos dois tomos em que ela se apresenta, poeta Thiago de Melo. Cafuso, o originalmente ictiologista maranhense

atraiu a atenção de ninguém menos que Claude Levi-Strauss e Roger Bastide. Carlos Drummond de Andrade também se ocupou dele – e não terá sido pelo simples fato de ser o primeiro não-branco brasileiro a receber honrarias e reverências da comunidade internacional!

Orlando Sampaio Silva, o único dos aqui citados ainda vivos, dedicou a maior parte de sua vida ao trabalho antropológico. Antes de diplomar-se bacharel em Direito na Universidade Federal do Pará, de que foi professor titular, teve intensa vida literária, da qual se afastou publicamente (embora continuasse produzindo poemas), em função de estudos e pesquisas na área que nos ocupa agora.

No seu caso, o foco de interesse espraiava-se de sua cidade natal (Bragança, no Pará), da Região (em cujo órgão de desenvolvimento, a então SPVEA, atuou por um período) e do exercício docente (na UFPA, da qual foi aposentado por força do Ato Prostitucional – como o chamava o advogado Alarico Barata – nº 8) alcançando outras regiões do País. Assim é que, dentre sua profícua obra escrita encontram-se os livros Eduardo Galvão: índios e caboclos (Ed. Annablume, São Paulo, 2007); Tuxá: índios do Nordeste (Ed. Annablume, São Paulo, 1997); Índios do Tocantins (Ed. Valer, coleção Memórias da Amazônia, Manaus-AM, 2009); A perícia antropológica em Processos Judiciais (Organizador, com Lídia Luz e Cecília Maria Helm, ABA-CPI/SP, Ed. Da UFSC, Florianópolis, 1994). Há, ainda de autoria de Orlando Sampaio Silva, dezenas de artigos publicados em revistas científicas e comunicações apresentadas em eventos da especialidade. No País e no exterior.

Etnias existentes em várias regiões brasileiras foram estudadas por Orlando, como os Yanomama, os Tiryó, os Wapixana, os Ticuna, além de serem estudados os japoneses que se instalaram na zona bragantina do Pará. Não faltam na bibliografia desse autor trabalhos sobre aspectos jurídicos, políticos e ritualísticos de sociedades indígenas.

Muitos trabalhos dos outros profissionais citados poderiam aqui ser mencionados, mas me restringirei a esses três, o que por si só torna estranha a omissão de seus nomes na escritura de Roque Laraia. O termo escritura é proposital, porque, não havendo qualquer sentido de crítica no presente texto, deseja-se apenas deixar registrada a estranheza pela omissão. Uma conduta, digamos assim, meramente cartorial.

Os que me conhecem mais de perto certamente alegarão que puxo brasa para meu peixe. Num certo sentido, estarão com a razão. Afinal, os laços de parentesco entre mim e Orlando Sampaio Silva - ele, tio; eu, sobrinho e amigo, que teve nele testemunho e participação no processo que me fez auto-alfabetizado – justificaria tal juízo. Só que os fatos, mais que os laços parentais, dizem da necessidade de fazer o registro, sem o que será provável a repetição da falta, salvo não fosse o professor Laraia respeitado e acatado pela comunidade dos antropólogos do País!

Logo a obra assinada pelo emérito mestre servirá de fonte para outros estudiosos. Qualidades ela as tem. Também por isso não pode permanecer com a omissão indicada, sob pena de perpetuar o que não considero desnecessária irreverência, se não fruto do esquecimento apenas.

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