Sociologia e barbárie anunciada


A Sociedade Brasileira de Sociologia – SBS vem realizando oportunos e interessantes debates sobre a pandemia e seus efeitos na sociedade. Sempre com dois expositores, o Presidente da SBS, Jacob Lima coordena as sessões, na mesa da última das quais estavam uma socióloga da URGS ( Professora Soraya Vargas Cortes) e seu colega Marcelo Seráfico, da Universidade Federal do Amazonas. O tema abordado na tarde da sexta-feira, 26, refere-se à pandemia e as políticas públicas. Ambos os profissionais negaram a existência de políticas públicas voltadas para o atendimento das necessidades sociais, e não apenas na área da saúde. Neste caso, a omissão do governo ficou mais evidente, em decorrência da covid-19. Também os dois professores concordaram em que a crise se instalou no Brasil antes da pandemia. Esta apenas agravou as condições de vida da maior parte da população. A entrada do vírus em território brasileiro apanhou-nos no momento em que avançava celeremente o que os expositores e o coordenador chamaram de política de liquidação do Estado. Neste ponto particular, o sociólogo amazonense apontou a recolocação em pauta do problema relativo à presença do Estado na vida nacional. Exemplo disso, a resposta aos desafios da pandemia foi prejudicada pelo empenho dos dois últimos governos, Temer e Bolsonaro, em liquidar o Sistema Único de Saúde. O propósito de substituir o Estado e, no caso específico, o SUS, entregando os serviços de Saúde à iniciativa privada, se concluído acarretaria tragédia maior à que já se registra. Há, então, a oportunidade de rediscutir as diretrizes governamentais para o setor, qual seja a de proceder ao desmonte dos serviços públicos. Aquilo que se tem chamado de rede de proteção social. Teríamos bem antes contabilizado maior número de mortos, muito acima dos 53 mil contados até aquele dia, caso tivéssemos chegado ao momento terminal dos esforços governamentais. Todos os sociólogos mostraram a inevitabilidade de ser avaliada a atuação do SUS, destaque dado aos profissionais a ele vinculados, de cujas dedicação e competência resultou número menor de vítimas, comparada à liquidação total do SUS.

Marcelo Seráfico reivindica profundas reflexão e discussão sobre, pelo menos, três pontos que a crise atual tornou cruciais: a importância do SUS e seu direcionamento para a prevenção mais que para a cura, o que ele chamou de orientação para a saúde ao invés de para a doença; os direitos de todos, segundo a Constituição e o que a sociedade e as autoridades entendem por cidadania; e o papel do Estado, face às consequências duradouras da crise de 2008 e o caráter transnacional que a própria pandemia revela.

Foram postos em destaque pelos três participantes da atividade promovida pela Sociedade Brasileira de Sociologia, ainda: o caráter marcante da Constituição de 1988, ao tentar proteger as camadas mais carentes da população; o tom marcadamente destrutivo das conquistas sociais, dos dois últimos governos, Temer e o atual; a firme decisão de anular conquistas e reduzir a presença do Estado, deixando a sociedade vulnerável à desenfreada exploração e suscetível de crescente imposição de visão meramente empresarial em todos os setores; a necessidade de repactuação social, em que a Federação há de fundar-se em termos democráticos, inclusivos.

O que está sendo chamado de “novo normal” merece, pelo que afirmaram os sociólogos, muito mais atenção.

Da parte deste editor, a volta ao normal conhecido não será motivo de júbilo, se não o for de lamento: crescente desigualdade; violência como forma de resolver contendas; exploração ainda maior da força de trabalho, em detrimento da maioria da população; a rua sendo o lar de cada dia maiores parcelas da população; educação e saúde tratando de enriquecer grupos privados etc. O que se conhece por barbárie. Não chega a outra coisa qualquer sociedade que renuncia a um projeto. O nosso caso.

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