Sobre um artigo

Marcelo Seráfico


O Leonardo Avritzer(1) põe o foco onde deve ser posto: nas similitudes entre nazismo e stalinismo. Pode não parecer nada, mas faz toda diferença analítica. O que está em causa não é o "modo de produção", isto é, capitalismo e socialismo - debate que se desenvolvia desde a segunda metade do século XIX, mas sim a unidade política na diversidade de realização histórica dos modos de produção. Em suma, nazismo e stalinismo revelavam-se formas totalitárias de exercício do poder no capitalismo e no comunismo.

No início da década de 1940, um dos mais qualificados críticos de Marx, Joseph Schumpeter, publicou Capitalismo, Socialismo e Democracia, livro no qual faz brilhante crítica à teoria da luta de classes, reconhecendo, porém, seus méritos analíticos, mas também suas limitações políticas. O pano de fundo da discussão em torno de capitalismo e socialismo se modificaria no pós-guerra. Aparentemente, essa mudança se deve à existência dos Gulags na URSS e dos campos de concentração alemães. Aparentemente. O problema ético-político não é esse, mas sim o do avanço da burocracia e da burocratização, isto é, de relações de dominação profundamente assentadas em hierarquias e leis.

Não é à toa que Arendt dedique um de seus principais livros à essa questão, Eichmann em Jerusalém. Apesar dos erros de avaliação do livro - o maior deles o de que Eichmann agia apenas como cumpridor de ordens, a tese que ela levantou permanece forte e válida: essas hierarquias subsumem os indivíduos a lógicas que os eximem de responsabilidade ética. Uma pessoa mata a outra porque recebeu ordem superior para fazê-lo!!! E isso funciona como argumento jurídico e político para promover a justiça. Isto é, está-se diante de uma discussão em torno de ideais civilizatórios que estão fazendo água!!!

O problema não estava, portanto, na URSS stalinista ou na Alemanha nazista, mas sim na dinâmica das relações de dominação características do século XX. quanto a isso, parece-me haver pouca dúvida de que a Guerra Fria exacerbou as tendências postas pelo stalinismo e pelo nazismo.

Os membros da Escola de Frankfurt, Horkheimer e Adorno à frente, diziam que o nazismo havia ganho a guerra. Não a guerra bélica, mas a guerra ideológica, cultural.

Alguém duvida disso hoje?

A ilusão liberal do Bem-Estar não atingiu muita gente no mundo e se manteve graças à manutenção - e até ampliação - da miséria em vários cantos. Daí que hoje autores como Agamben falem na existência de um Estado de Exceção, tese retomada no diálogo com Arendt e com um autor essencial que, talvez por ser da Martinica, não tenha tanto eco em alguns meios hoje em dia, Franz Fanon. Outro contemporâneo que repõe o debate em termos críticos ao eurocentrismo é Achiles Mbembe, camaronês que forjou o termo "necropolítica" para esclarecer o modo de agir do Ocidente em relação a tudo que se oponha ou contraste a/com as forças dominantes nos movimentos de ocidentalização do mundo. Numa intuição tornada análise, em meu entendimento, brilhante, Mbembe mostra que o grande laboratório do totalitarismo não foram os campos de concentração e, dada nossa discussão, nem os Gulags, mas sim as colônias europeias nas Américas e na África. Isso deveria ser óbvio, mas não é e ele mostra a vasta tradição totalitária Ocidental, toda ela assentada num discurso racionalista e, frequentemente, associada a ideais como os de igualdade e liberdade.

Enfim, a discussão ultrapassa em muito a conjuntura nacional, a Guerra Fria, a díade stalinismo/nazismo ou capitalismo/socialismo. Estamos discutindo os fundamentos históricos do mundo moderno, uma discussão política, sim, mas antes de mais nada epistemológica.

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*Professor de Ciência Política da UFMG, publicou no blog brasil247, dia 24-09, artigo intitulado Hannah Arendt, autoritarismo e stalinismo.

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