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Sobre "O ÚLTIMO DISCURSO" - I

17 de ago.
3 min de leitura

Walbert Monteiro*


Não sei há quanto tempo adquiri e mandei emoldurar o texto de Charlie Chaplin – “O último discurso” - que é a antológica cena final do filme O Grande Ditador (1940), que foi dirigido e estrelado por ele. O quadro, atualmente, é um dos ornamentos de minha sala de estar, em Salinas, ao lado de uma composição de extraordinárias fotos do genial Luiz Braga e de uma gravura do não menos icônico Augusto Morbach (Cangaceiros, 1976). Muito antes de ter iniciado o meu processo de retorno ao catolicismo o conteúdo desse “discurso” constituía uma espécie de ideário reflexivo, quando estava no verdor dos anos 30 e nutria sonhos políticos (que foram abortados nas eleições municipais de 1992, quando o eleitorado não me quis como vereador).

Era marcante, para mim, a fala inicial: “Sinto muito, mas não pretendo ser um imperador. Não é esse o meu ofício. Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja. Gostaria de ajudar - se possível - judeus, o gentio ... negros ... brancos. Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo - não para o seu infortúnio. Por que havemos de odiar ou desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover todas as nossas necessidades. O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma do homem ... levantou no mundo as muralhas do ódio ... e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas duas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido”.

Não pode haver dúvida de ser esta uma das mais vigorosas manifestações humanistas já produzidas pelo cinema. E, no contexto da trama, esse discurso não é pronunciado por um personagem poderoso. A oração é de um homem comum que, por uma sucessão de acontecimentos, tem diante de si a oportunidade de falar ao mundo. E, quando fala, faz uma reflexão sobre a dignidade humana.

Vale destacar que o texto foi escrito às vésperas da Segunda Guerra Mundial, quando o totalitarismo parecia avançar de forma irresistível. Chaplin percebeu, antes de muitos, que o maior perigo, além das armas e da escalada da violência, estava na desumanização. A crítica não é dirigida somente aos ditadores. Seu endereço é a toda sociedade que permite que o poder, a intolerância e o ódio substituam a compaixão e a liberdade.

Chaplin adverte que a humanidade desenvolveu máquinas capazes de encurtar distâncias, ampliar conhecimentos e multiplicar riquezas, mas extrapolou nos desafios éticos: a ganância, o egoísmo, a manipulação e o desprezo pela vida humana ganharam dimensões inimagináveis. Quando o homem perde a capacidade de enxergar o outro como irmão, qualquer avanço material torna-se desprezível.

A dimensão comportamental da mensagem está no convite que Chaplin faz a cada pessoa para que assuma sua parte na responsabilidade que todos temos pela construção de um mundo melhor. É um discurso que não alimenta esperanças de que a mudança venha exclusivamente dos governantes ou das instituições, mas aposta na possibilidade de que possamos recomeçar mudando a maneira como tratamos os outros, enfrentamos as injustiças e preservamos a liberdade.

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*Jornalista e escritor, membro da Academia de Letras do Pará

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