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SOBRE FILOSOFIA, GEOPOLÍTICA, DIALÉTICA E BRAVATAS

José Alcimar de Oliveira*

 

A dialética de Hegel é a forma básica de toda dialética, mas somente depois que ela foi extirpada de sua forma mística, e isto é precisamente o que distingue meu método (Marx). 

 

               01. Não sou analista de geopolítica nem tenho filiação intelectual genética. Filho de Ana Nilda e Marcondes, retirantes nordestinos que em 1955 fugiram das secas (e bem mais das cercas) de Jaguaruana, no Vale do Jaguaribe, Ceará, e buscaram sobrevivência na comunidade de Bela Vista, em Manacapuru, AM, às margens do portentoso rio Solimões, meus pais, embora privados do direito à escolaridade, tudo fizeram para que seus 12 filhos escapassem ao jugo do analfabetismo promovido pelo Estado brasileiro, controlado que é pela magna didática do capital. Na dialética da história é a luta pela sobrevivência que comanda a vida. Eis o texto de Vidas secas que nos foi dado pela graça do grande Graça.  

               02. Sou um cultor dos jardins filosóficos do sábio, materialista e cosmopolita Epicuro, pensador que está no centro do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de Marx. Um TCC com estrutura intelectual e orgânica muito acima das medianas teses de doutorado do atual, serial e doentio produtivismo acadêmico.  A vaidade, sob métrica e disfarce de burocracia e formalidade, é um motor que impulsiona um fazer vazio de saber.  A mim, sempre me tocou o profeta Amós, um cultivador de sicômoros, que diante do chamado à profecia respondeu que não era profeta, nem filho de profeta. 

               03.Vejo o mundo a partir da periferia estabelecida por um mundo que se julga ter centro. O centro, para mim sempre móvel, é o lugar onde vivo, piso e penso. Estou em Manaus, cidade (e anticidade) ao mesmo tempo bela – um presente do Negro rio – e estruturalmente desigual e maltratada pelo setor mais tosco, arrivista e boçal de sua classe dominante.  A alma verdadeira de Manaus, que resiste e vive entre as cinzas do progresso sem alma, é a que procede da ontologia de seus povos originários. Numa de suas afinadas crônicas Clarice Lispector escreve que Brasília havia sido tomada pelos ratos. Que crônica, se a tivesse alinhavado, Clarice reservaria a Manaus?

               04. Afinal, quem de fato está encurralado (ou, no apelo conotativo, em-cu-ralado) nessa geopolítica de 2025?  O Império do Norte vai invadir a Venezuela? E as fronteiras econômicas, políticas e geopolíticas? Ninguém as leva em conta? São mais fortes que as fronteiras geográficas. É bom considerar que a Venezuela, com a maior reserva conhecida de petróleo do mundo, tem fronteiras políticas e econômicas com Irã, China e Rússia. Com o Irã, a Venezuela tem acordo estratégico firmado por 20 anos em áreas como defesa, tecnologia, agricultura, petroquímica, cultura. A China é o maior importador do petróleo venezuelano. E o Irã?  Não é de somenos que 90% das exportações de petróleo do Irã vão para a China. E a Rússia, que na América Latina tem com a Venezuela sua maior relação bélica e comercial?  

               05. E diante desse devir, o que dizer de nossa mídia-lixo, vassala e afinada ao Império? Sigamos, como bem apontava o iconoclasta Nietzsche, a fortalecer o pensar filosófico como estratégia de subtrair à estupidez sua boa (e decomposta) consciência.

               06. Porque a linguagem, mais do que morada do ser, conforme Heidegger, é sobretudo abrigo de ídolos, como bem registra o velho Francis Bacon. O quanto enreda a linguagem das redes.

               07. Sob as bênçãos de Padim Ciço e do filósofo-artista Chico César, Deus me proteja de mim e da maldade de gente boa.  

_________________________________

 *Professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas, teólogo sem cátedra, segundo vice-presidente da ADUA - Seção Sindical e filho do cruzamento dos rios Solimões (AM) e Jaguaribe (CE). Em Manaus, AM, outubro de 2025.

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