Segundo o figurino

Estranhar que haja pessoas festejando a apresentação do Presidente Bolsonaro, na sessão se abertura da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas é apenas ignorar o atual estado de coisas. O discurso de ódio deixou de ser apanágio de um pequeno grupo, desde que mais de 57 milhões emprestaram o seu apoio a esse sentimento. Neste particular aspecto, apoiadores e sua liderança têm sido coerentes.

Esperar, por outro lado, que fosse diferente é, no mínimo, dar sinal de que o mal de Alzheimer se aproxima. Outra coisa não fizeram o então candidato e os que o mitificam, se não apontar na direção em que estamos rumando.

As ameaças contra a democracia, a perseguição dos que não rezam na mesma cartilha do Presidente, o ataque a governos estrangeiros, a discriminação contra as minorias - tudo isso consta do menu anunciado. Ninguém pode, portanto, queixar-se ou mostrar-se decepcionado. Quando ocorre de um Alexandre Frota reclamar, pode-se apostar que, a despeito de seu atual sentimento ser compartilhado pela grande maioria dos brasileiros, não deve corresponder a boas razões. Humanitárias - ou, mesmo humanas - certamente não serão.

Assim, a oportunidade de desmentir a péssima imagem que o Brasil vem construindo, desde janeiro deste ano, no seio da comunidade internacional, terá sido perdida.

Talvez alimentar qualquer esperança de que o Presidente afinal entenderia seu importante papel e avaliaria com inteligência o peso do Brasil no cenário internacional, fosse absurdo. Os antecedentes não permitiam isso.

Enfim, foi o que se viu e ouviu, quando o Presidente Bolsonaro deitou falação. O que já sabíamos, espalhou-se pelos cinco continentes e deixou um rastilho de anedota em todos os lugares. Basta ler os jornais mais importantes do Mundo, para ter uma ideia do gol contra. Se antes éramos vistos apenas com reservas, as razões dessas reservas tornaram-se cristalinas, impossíveis de esconder.

Quem o diz não é este escriba de província, mas os mais respeitados diplomatas brasileiros, formados em respeitável escola de diplomacia, ora em vias de destruição. É difícil até imaginar como se sentem os profissionais formados no Instituto Rio Branco, diante do inadequado discurso de Bolsonaro.

Talvez ele pudesse dizer tudo quanto desejasse, não fosse aquela uma reunião das mais importantes para a comunidade internacional. Talvez o tom de seu discurso poderia ser outro, não intimidatório, a reproduzir a forma como se manifesta diante das câmeras e microfones, para onde quer que convoque os jornalistas. Os de sua preferência, óbvio.

Assim, a linguagem imprópria, o tom agressivo e a expressão hostil aos que lhe não rendem homenagens constituíram a marca do palavrório presidencial.

Nada de novo ele apresentou, eis que repetiu cantilena que já começa a ser rejeitada por muitos dos seus próprios antes ensandecidos seguidores. Nada, porém, que surpreenda, pelo menos os que têm acompanhado a política brasileira nas últimas cinco décadas.

Já nem se exigiria contraditar seus gurus, para os quais a Terra é plana, a Amazônia pode ser queimada, os índios merecem ser varridos de seus territórios, os negros devem ser eliminados por balas achadas e perdidas, os dissidentes queimados na fogueira. Esse discurso que enche de orgulho os adoradores de qualquer deus. Sobretudo, o deus da morte, não o do amor.

Surpreendente é a análise com que alguns tentam mitigar as más consequências esperadas: os recados de Bolsonaro seriam destinados ao público interno, aos já menos de 57 milhões que o seguem cegamente.

Isso equivale ratificar o que o próprio Presidente, mal contados os votos, afirmou: não se sentia em condições de governar o País. Como então, entender que a mais importante reunião do organismo internacional era espaço adequado a indiretas e recados, mesmo se para isso a agressão a dirigentes de outros países, a grosseria às autoridades da própria ONU e a reincidência em bravatas pueris fossem proferidas?

Muitos dos que ajudaram o capitão a subir a rampa do Planalto hoje estarão se perguntando para quem venderão a soja que destrói a floresta.

A ficha, contudo, ainda pode cair. Depende de como se comportará o Congresso norte-americano. Desde ontem, o projeto de impeachment contra Trump começou a tramitar.

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