Sacralidade em xeque

Recorro, mais uma vez, à minha tia Guiomar. Com ela terei aprendido algumas das muitas lições que a vida me tem proporcionado. Exímia chapeleira, a irmã de meu pai tinha em cada cliente uma admiradora cativa, admiração multiplicada, tanto quanto a clientela, no período do Carnaval, no mês de maio e seus casamentos, e no final do ano escolar. Suas mãos não dariam conta de tantas encomendas, para a cerimônia de diplomação dos médicos, bacharéis em Direito, engenheiros, farmacêuticos e outros profissionais de nível superior. A entrega das espadas aos novos aspirantes formados no CPOR concorria, também, para o pão que tia Guiomar punha à mesa de sua casa. Às vezes, à custa do sono não desfrutado. Se eu a admirava pelo talento, a determinação e a solidariedade fraterna jamais negada, maior era minha atenção para uma frase que ela repetia ao menor pretexto: Deus me livre dos ignorantes. Era a forma singela e precisa como aquela chapeleira rendia homenagem ao conhecimento, no seu caso específico expresso no trabalho criativo e manual de que resultavam os chapéus por ela confeccionados. Não é muito difícil estabelecer a relação do que ela dizia, com a realidade de nosso ambiente social, passado tanto tempo de sua morte. Só a ignorância justificaria a resposta do ex-capitão Jair Messias Bolsonaro, ao seu virtual sucessor, feito capitão-mor da Amazônia. A propriedade privada é sagrada, diz o chefe do general-vice-Presidente, Hamilton Mourão, como resposta à sugestão de punir os desmatadores da floresta com a pena de expropriação. Em primeiro lugar, o desconhecimento dos limites constitucionais impostos ao direito de propriedade é inadmissível em quem ocupa o posto de Presidente da República. Depois, porque ele coloca em debate o sentido de sacralidade, a seu critério aplicável ao caso. Aqui, no mínimo estaríamos diante de um dilema: será a apropriação de um bem da natureza mais sagrado que o respeito à Natureza? Tinha razão minha tia Guiomar. Tem-na, ainda!

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