Riscos indesejáveis

Sempre caberá lembrar de aspectos que levaram as forças armadas brasileiras a angariar a admiração e o respeito da sociedade, ao longo dos anos. Faz poucas décadas, nossas forças regulares e a imprensa (a que se limitavam os meios de comunicação) desfrutavam das primeiras posições no ranque da credibilidade pública. Já nem me refiro às façanhas bélicas, pois ainda pairam sobre a sociedade a desastrosa intervenção do Exército na Guerra de Canudos e a carnificina de que participamos no Paraguai. Fatos neutralizados pela sincera e determinada participação de prestigiados oficiais superiores na campanha pela criação da Petrobrás e pela adesão de nossas forças aos Aliados, na luta contra o nazifascismo. Estes, mais que os outros, episódios ainda não suficientemente estudados e divulgados. Merecimento, o há.

Sob a Constituição de 1946, ela mesma um produto da derrota de Hitler e Mussolini, subiu ao poder, com o voto popular, um respeitado homem de armas – Eurico Gaspar Dutra. Consciente do significado da ideologia vencida nos campos da Itália sobretudo, dele se recebeu a síntese mais contundente do significado de uma Constituição: está no livrinho? Perguntava o Marechal a seus assessores, sempre que lhe cabia tomar alguma decisão importante. O livrinho a que se referia Dutra, e não por menosprezá-lo, mas por certo carinho, era a Constituição Federal, elaborada em assembleia de que participaram as correntes ideológicas capazes de colher votos do povo. O Partido Comunista Brasileiro dentre elas. Também seu avesso, o Partido de Representação Popular, de Plínio Salgado.

Após Dutra, o ex-ditador Getúlio Dornelles Vargas subiu ao poder, desta vez com o voto dos eleitores. Sua trajetória até esse ponto foi facilitada pelas políticas públicas iniciadas ainda sob o pálio do que se chamou Revolução de 30. Mais tarde, a criação da estatal do Petróleo e da Companhia Siderúrgica Nacional terão sido os exemplos mais marcantes.

Da morte do caudilho gaúcho presumo saberem quase todos os membros das Forças Armadas. Tanto pela importância dos anos 1950-1954 para a História do País, quanto pela participação de alguns dos líderes militares, de um lado e do outro das forças em confronto. Basta lembrar de uma das mais mencionadas mortes ocorridas no período, a do major Rubem Vaz. Destacado oficial da Aeronáutica, o Major Vaz conformou-se em ser guarda-costa do oposicionista Carlos Werneck de Lacerda, um dos pivôs do suicídio de Getúlio. A morte de Vaz pareceu ao ex-comunista Lacerda a chave de abertura da porta por onde ele entraria para exercer o poder.

Em 24 de agosto de 1954, o povo enchia as ruas do País e punha por terra o projeto político do brilhante jornalista fluminense.

Subiu ao poder, em seguida, Juscelino Kubitscheck de Oliveira, sempre incomodado por pequenos segmentos das Forças Armadas, como as rebeliões de Jacareacanga e Aragarças o atestam. Os passos ligeiros e hábeis com que JK passeava nos salões de dança compareceram também no cenário político. Juscelino cumpriu seus quatro anos de mandato presidencial, entregando a faixa a um adversário, em 1961. De Jânio não se fale, pela desastrada administração que durou menos de oito meses.

A fuga de Jânio inaugurou outra etapa em nossa história, num cenário em que a corrida espacial e a Guerra Fria estavam postas. Também a expansão do capitalismo, exigente de espaços – territoriais e políticos – para ampliar seu domínio do Mundo. Ocorreu nesse período o que terá sido a primeira experiência ditatorial suportada pela geração de que faço parte. O golpe militar que o povo impedira nas ruas dez anos antes, tornou-se viável. Não sem atrair para a costa brasileira belonaves norte-americanas. O derrame do dinheiro arrecadado pelo IBAD (INSTITUTO BRASILEIRO DE AÇÃO DEMOCRÁTICA) e as ideias e ideais proclamados pelo IPES (INSTITUTO DE PESQUISAS E ESTUDOS SOCIAIS) foram complementados pelo esquecimento das atrocidades do nazismo e do fascismo.

Nem todos os que nasceram depois têm adequada compreensão daqueles dias, mas não são poucos os militares sensíveis às marcas deixadas. Sobretudo porque jogaram fora parte do capital de credibilidade e austeridade construído na fase em que o Brasil tentava inserir-se no circuito internacional do capitalismo. O golpe de 1964 prometera destruir comunismo inexistente e varrer de vez a corrupção crescente. Tanto se comprometeu com a primeira promessa, que acabou por esquecer da outra. Sequer as lideranças da época se deram conta de que, à sombra da censura e dos interesses internacionais, seria difícil cultuar valores adequados à democracia e benfazejos ao povo brasileiro.

Hoje, vemo-nos vitimados por fatores residuais do período autoritário e pela novidade em que se constitui a covid-19.

É como se estivéssemos voltando à guerra fria, desta vez com o inimigo instalado dentro da sociedade e de cada um dos seus membros.

Não é prudente, muito menos sábio, desconsiderar aspectos peculiares a este momento, como complicadores do cenário. Ao mesmo tempo, fatores de agravamento do prestígio de nossas forças armadas, por muitos tidas como aparato a serviço de um governo e de suas políticas, não de um Estado - democrático de Direito, como está na Lei Maior.

Para isso é que eu gostaria de chamar a atenção. Qualquer tentativa de repetir o que o passado mostrou lesivo ao bom nome do País no concerto internacional só nos fará mal. Nem se espere que o processo de globalização repentinamente interrompa seu curso, a não ser que novas bases e relações econômicas se alterem profundamente.

Não ficaria bem para as forças armadas brasileiras contribuir para o declínio da importância do País no cenário internacional.

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