Retrato 9

Imagine um país em que o estupro é tipificado como crime, mas autoridades públicas o recomendam, desde que seu autor poupe a vida da vítima. Esqueça que está fora da vida pública quem o disse. Também não precisa mencionar que o mesmo Paulo Maluf foi acusado da prática de outros crimes. Afinal, como ele se contam aos milhares os políticos denunciados por práticas semelhantes. Lembre-se, porém, da reverência quase-adoração de um deles ao torturador mais conhecido e comprovado. O adorador, mais tarde, foi eleito Presidente desse país. Não sem antes rejeitar a hipótese de estuprar uma colega de Parlamento, por considera-la feia. Ah, se ela fosse uma mulher bonita! Nesse mesmo país, o estupro é crime quase tão frequente quanto o café da manhã. Como é frequente menores e vulneráveis serem estupradas por seus próprios pais, irmãos, tios ou outros membros de suas próprias famílias. É também ali que crianças estupradas e engravidadas são chamadas assassinas. Protestando defesa da vida humana e dizendo-se cristãs, pessoas reúnem-se em frente ao hospital para onde a criança foi levada, e com gritos condenam-na e ofendem pelo crime que a vitimou. Não lhes importa a vida da menina estuprada, mas dizem que defendem a vida. Talvez do estuprador, quem sabe sem o mesmo rigor estético do político. Ou gratas a ele, por não ter matado a sobrinha, como o outro recomendara. Também nada entenderam da decisão do Poder Judiciário, que sabe a diferença entre direito e expectativa de direito. A pessoa humana posta no mundo e a que ainda espera ver a luz do sol. Impossível imaginar, porém, que pessoas assim tenham sensibilidade para entender razões humanitárias, seja lá do que se trate. Afinal, essas são as mesmas para quem bandido bom é bandido morto. A não ser que sejam estupradores ou – o que vem a dar quase no mesmo – amigos diletos. Ou líderes adorados.

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