Retrato 10

Tempos atrozes como o que vivemos despertam em nós, mais que a perplexidade e o medo, a dúvida. Tanta a surpresa, que não há como fugir de dilemas com que jamais nos defrontáramos; tanto o medo, paralisante face à incerteza do amanhã. Talvez o melhor momento para viver o tal aqui-e-agora recomendado pelos que à custa dele têm feito fortuna. Sem que a ansiedade que o tem como desafio seja reduzida. Sem que o conselho previna novas ansiedades, novos medos. Com a desvantagem de, reduzindo tudo a um presente extinto ao pronunciar da última sílaba, sepultar a trajetória, abortar o futuro.

Às dúvidas anteriores somam-se outras, todas competindo na conquista de mentes e corações todo dia esmigalhados. Sim, porque desse processo, interna e externamente insano, nada de bom se espere restar.

Confesso aumentados meu medo e minha perplexidade, ao constatar dilema que suponho e presumo afetar milhões de outros seres humanos, como se pandemia também fosse. Refiro-me a dois fenômenos de abrangência diferente, pelo menos em aparência. Um deles, o nome já o diz, envolve todos os viventes, estejam onde estiverem. Chamamo-lo pandemia. O outro, que tantos nomes podem identificar, parece registro pontual, localizado, peculiar a determinada sociedade, sem que dela se dê conta nosso próximo distante. Perversidade? Hipocrisia? Desumanidade? Confesso-lhes não saber como classificar.

Quando se caminha para contar 120 mil mortos por um vírus em viagem pelo Mundo, agride-se uma criança, não trouxesse ela consigo marcas indeléveis de sua curta vida. Estuprada pelo próprio tio havia alguns anos, a menina engravidou. Sua percepção infantil não a impediu de avaliar os riscos daí decorrentes. Não me refiro àqueles riscos dependentes de conhecimento científico, mas à supressão de sua infância. Algum dia ela terá tido nos bracinhos inocentes uma bonequinha, menor que fosse. Ou uma bruxinha de pano. Tudo igual, para uma criança. Algo muito diferente que sentir as entranhas dilatadas, uma boneca indesejada atormentando seu corpinho frágil, sua alma ainda não de todo chegada ao convívio mundano. O que bastou para leva-la à execração pública. Como na porta do templo onde um certo andarilho nazareno chicoteou os hipócritas, juntaram-se malfeitores de toda e qualquer ordem, a açoitar a garota. Sem chicote, porque a dignidade humana dispensa tais instrumentos. Com fúria e ódio injetados nos olhos e palavras correspondentes a esses sentimentos. Chamavam-na assassina, nenhuma atenção foi dada ao estuprador. Desta vez, venceu a Ciência – e o feto foi extraído, devolvendo-se àquele frágil ser humano a vida que em nome da quase-vida a turba desejava sacrificar. Sabe-se que a vítima do estupro, quem sabe invejada pelo fastio de que seus detratores são endereço, trocará de nome e endereço. Pena que tal troca é quase impossível operar-se em gente (?) do jaez dos cristãos sem Cristo. Dos seres aos quais basta andarem sobre as duas patas traseiras ancestrais para reivindicar a condição humana.

Eis o retrato de um tempo – seus costumes, sua gente, seus sentimentos e valores!

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