Ressurreição

Tenho fundadas razões para considerar o único líder do Partido Trabalhadores, Luís Inácio Lula da Silva um traidor das causas populares. Votei nele em duas eleições sucessivas e, após a vitória de 2001, as lágrimas de alegria traduziam a esperança - minha, como a de milhões de brasileiros. Por isso, indicado pela bancada federal do Amazonas, assumi o desafio de integrar, como suplente, o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República. Bastaram 20 meses para dissipar as dúvidas que me assaltavam, desde a edição da Carta aos Brasileiros. A resistência do governo de Lula em promover a mais ampla investigação do mensalão, enquanto era apenas de rumores que se tratava, foi decisiva para mim. Deixei o CDES, onde fazia pouco havia tido prova de lhaneza e reconhecimento pelo desempenho do papel que caberia àquele colegiado, no que concerne à concertação nacional. Ali já estavam, e predominavam, as mesmas forças que hoje pedem a morte dos pobres, para não serem reduzidos os lucros que os animam. A rendição de Lula ao capital data da Carta aos Brasileiros. Em agosto de 2005 senti e acompanhei os acontecimentos e pude constatar a frustração de um sonho. Publiquei, logo após deixar o Conselhão, como se o chamava, Do ABC ao Planalto.Sonhos & Frustração. Na eleição seguinte, exerci o direito de voto levado pelo desespero, não mais pelo entusiasmo e a adesão ao programa anunciado. Lula já tinha tomado gosto pelo Romanée-Conti e pela companhia dos banqueiros, empreiteiros e potentados econômicos. O cachimbo já lhe tinha alterado a forma da boca. E ele pouco fazia para abandonar aqueles que sempre criticou e voltar ao aprisco original. Tornou-se não mais que um líder populista, cujas supostas conquistas não têm a duração necessária. Os números o dizem. Nem se pode dizer que mesmo o mais sólido desmancha-se no ar. Foi preciso pouco ar para desmanchar tudo o que pensávamos conquista duradoura. Veio a Lava Jato e jogou sobre Lula a lama dos que nela chafurdam. O que lhes está mais próximo é o que atiram contra os desafetos. Junto com a lama, algumas pedras a maltratar os pés do líder ex-operário. Essas pedras, e só elas, puseram-me ainda mais distante de Lula.

Mas, sendo coisa de profissionais, não de amadores, o Brasil chega ao ponto em que estamos. Como de costume, grupos precisam brigar internamente, para que a verdade emerja, cristalina às vezes, cheia de subterfúgios em outras. E se pode constatar quanto avançamos para trás. Convergem no meio deste lodaçal persistente a pandemia de um vírus com a conduta de alguns vermes. E Lula, vítima dos piores atentados que se tenha cometido contra a ordem constitucional, tem a oportunidade de mostrar em que é diferente da grande maioria. O discurso pronunciado pelo ex-Presidente, à guisa de saudação aos trabalhadores, neste Primeiro de Maio de 2020 dá-lhe o caráter de estadista. Preciso, discreto ao ponto de mencionar de raspão apenas o atual Presidente, Luís Inácio Lula da Silva representa Lázaro que a morte não matou, o leproso cujo mal a ninguém repugna. Se ele pretende de fato ressurgir, que olhe para trás, aprenda - coisa para ele fácil, como temos notado - e retome as promessas de quando o amor venceria o medo.

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