Resíduos deste dia, em 1964

Passado mais de meio século, o golpe contra as instituições democráticas ainda opera efeitos sobre a sociedade brasileira. Pior que tudo, entretido em evidente esforço de ressurreição. Os 32 anos que nos separam do nascimento da Constituição-cidadã não lograram sepultar em definitivo a fase mais obscura e trágica de nossa História. O que se vê é o aplauso às mesmas práticas experimentadas no período 1964-1985, com a agravante de que tudo se constituiu dentro de processo eleitoral legalmente protegido. Haveremos todos de reconhecer, porém, quanto ainda resta daquela fase, o que tem sido frequentemente chamado de resquícios da ditadura. Os pretextos usados para derrubar um Presidente da República votado como o foi o atual - o combate ao comunismo e à corrupção - satisfizeram-se quando a resistência foi destroçada. À custa do sangue de muitos, de um lado e do outro, mas - pior que tudo - da dignidade de toda uma nação. O outro pretexto, ao contrário, só fez ampliar seu espaço e se fortaleceu ao longo das últimas décadas. Nem se poderia esperar diferente, eis que ambiente nenhum é mais propício à desonestidade quanto aquele que se nutre da censura, da tortura e do uso da força. Nesse caso, a alegação supostamente moralizadora ganha tons de ridículo e aspirante à zombaria. É lá atrás que estão as raízes das grandes empreiteiras, seduzidas pelo calor oficial, acumpliciadas com ocupantes de importantes gabinetes, consumidoras do que poderia ter restado das esperanças do povo brasileiro. Muitas dessas empreiteiras, mas não apenas elas, nada mais fizeram que aumentar sua influência sobre as decisões, nos mais diversos escalões da República. Outros setores, do automobilístico ao de comunicações, também medraram ao sol que muitos viram quadrado, financiando atividades integrantes do rol de crimes contra a humanidade. Quem não o sabe despenderá pouco esforço para encontrá-los. Não falta literatura sobre isso.

Os resquícios daquele outro vírus, talvez mais mortal que o de hoje, continuam operando. Se efetivos ou não - quem o saberá?

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