Religião e boa fé

O Papa Francisco abriu o Sínodo da Amazônia, em celebração realizada ontem, no Vaticano. Terá sido a abertura de uma das mais importantes reuniões internacionais das últimas décadas. Seja pela autoridade de que se reveste o líder da Igreja, seja pela extrema desigualdade que se espalha mundo afora. Não se trata, como alguns sofistas costumam argumentar, de interferência indevida de um Chefe de Estado nos assuntos de outras nações. Ao contrário, quando escolheu o tema e a pauta do Sínodo, o cardeal argentino tinha plena consciência do vespeiro que se abriria.

Francisco é, sim, um Chefe de Estado. Cabe a ele como Papa a direção do Vaticano. A essa singular condição ele junta a de líder de uma das mais numerosas confissões de fé religiosa. Nem mesmo a circunstância de muitos dos que se dizem católicos, contradizerem por suas ações as prédicas de Jesus desautoriza a palavra e a conduta papais. Ao contrário, tal circunstância torna-a mais necessária e autorizada. A necessidade decorre da distância que, de forma crescente, se verifica entre o verbo e a conduta. As provas são demasiado evidentes, para que tenhamos a obrigação de repeti-las em texto escrito. Ainda mais em um blog, quando o noticiário dos meios de comunicação abertos é rico de registros.

Autorizada o é, porque não estão reunidos no Vaticano os que respondem pela desigualdade imposta ao Mundo. Não é na minúscula porção do território italiano, administrada por um religioso, que se juntam os ricos para dar ordens às nações, mas em Doha. Nesta cidade é que, a cada reunião, agravam-se as restrições sofridas pelos mais pobres. Em concomitância com a intensificação do processo de acumulação que destina a ínfima parcela dos habitantes do Planeta o grosso dos bens e comodidades produzidos por todos.

O Papa, os 185 bispos e um reduzido grupo de convidados, representantes sobretudo dos oprimidos de todos os continentes têm a noção mais adequada da importância da Amazônia para a saúde do Planeta. Se não desejam a aceleração do processo predatório que condenará a Terra, mais cedo do que se pensa, à extinção, não há como ignorar as ameaças que pairam sobre a extensa região sobre a qual o Brasil mantém a soberania. Esta, nem sequer está posta em causa. Como Chefe de Estado que sabe cumprir seu papel, o cardeal Jorge Bergoglio e os que o assessoram têm nítida a responsabilidade que lhes cabe. Em especial, que cabe ao Sumo Pontífice.

Não há qualquer ameaça contra a Amazônia, como alguns tentam persuadir os menos informados. Ao contrário, o alvo das preocupações – espera-se, também, das recomendações pós-Sínodo – da Igreja são exatamente os que permanecem vivendo no mundo do pós-guerra e da guerra fria. Tocados pelo mais anacrônico maniqueísmo, vendam seus olhos e suas percepções e tentam remeter-nos a passado que cumpre superar. Esquecer, não diria, pois o esquecimento é uma forma de morte imorredoura (se me entendem a licença poética). Sem o conhecimento do passado, o presente se torna mais complicado, o futuro não se pode construir.

Os devastadores, os agressores das riquezas naturais orientados pelo critério mais agradável aos frequentadores de Doha (não do Vaticano), os produtores e cada dia mais enraivecidos defensores da desigualdade – esses é que são os incomodados com o Sínodo. Não são esses os que, mesmo batendo no peito e jurando amor à Amazônia e aos amazônidas, têm revelado os cuidados que a natureza requer, se vemos nela promessas por cumprir, em termos de desenvolvimento social e econômico. Os que dispensam esses cuidados são os que merecem as atenções dos religiosos de boa fé.

0 visualização

Arquitetado e Produzido por WebDesk. Para mais informações acesse: wbdsk.com

Todos os Direitos Reservados | Propriedade Intelectual de José Seráfico.