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REGISTROS HISTÓRICOS DA FORMAÇÃO E DA VIDA DO POVO HEBREU/JUDEU E SEQUÊNCIA GENEALÓGICA ATÉ J.C.

INTERPRETAÇÕES BÍBLICAS

VI PARTE - C - AS TÁBUAS DA L E I - A RELIGIÃO HEBRAICA

ORLANDO SAMPAIO SILVA

A caminhada do povo prosseguiu. No Êxodo, os fugitivos eram cerca de / ou / prováveis / 600 a 700 mil pessoas. Com três meses de marcha pelo deserto, os hebreus atingiram as terras do entorno do Monte Sinai (a região montanhosa do Sinai, no presente, é denominada de Península do Sinai e faz parte do território do Egito). Aí acamparam e Moisés subiu ao monte. De conformidade com a narrativa bíblica, no alto do Monte Sinai (em hebraico Monte Herebo, o Monte de Deus), Moisés recebeu da divindade as Tábuas da Lei, nas quais o Criador escreveu os “dez mandamentos da Lei de Deus”. Lá, mais uma vez ocorreu o fenômeno da “sarsa ardente”, que representava a presença inspiradora e absoluta de Deus. E lá, uma vez mais, estava o menino anjo a oferecer um líquido a Moisés, que o bebeu (v. acima). Moisés se demorou 40 dias no alto do Monte Sinai, tempo necessário à sua concentração mística sob os eflúvios majestáticos da presença divina. Nesse tempo, Moisés recebeu/concebeu os valores e os princípios fundamentais da religião, que ele registrou na pedra, ao nela esculpir o Decálogo. Esta ultima é uma narrativa ou mesmo uma hipótese mais realista ou laica que admite a possibilidade de que quem escreveu o Decálogo, no alto do monte Sinai, na meditação e na solidão, foi Moisés. Tanto que, logo, ele retornou ao alto do monte para compor novas Tábuas ou recompor as Tábuas, que substituiriam as anteriores, que, irado, ele havia quebrado (cf. abaixo).

Não se deve esquecer que Moisés foi criado como um príncipe egípcio, na corte do faraó e que há, historicamente, a hipótese ou, antes, a possibilidade real de que ele sofreu influência do monoteísmo egípcio da época do faraó Aquenáton. Esta possibilitate pode ser considerada complementarmente com a missão divina que ele recebeu no Sinai, narrada na Bíblia. Moisés, o príncipe egípcio, teria agido como um instrumento do Deus único dos patriarcas. Porém, na religião instaurada por Moisés, o Deus não é um astro do sistema planetário. Para Aquenáton, o sol era Deus, deus era o Sol (Aton). Na religião hebraica, Ele é Ele. O sol foi criado por Ele. Ele é irrepresentável por qualquer imagem. De conformidade com a versão das Escrituras.

Os dez mandamentos constituíam um códice ético/moral/comportamental, que sintetizava os fundamentos essenciais da religião que estava sendo criada. Segundo a tradição bíblica, Moisés recebeu as “Tábuas” sagradas e desceu do monte levando-as consigo. Ao se deparar com o seu povo, ao pé do monte, este o viu portando dois raios de luz, que partiam de sua testa para o alto, como se fossem uma aura, sinais que simbolizavam a epifania, que Moisés havia se comunicado com Deus e, também, a missão a ele atribuída de fundador da religião hebraica e, de condutor daquele povo, povo que deveria ser fiel aos valores, princípios e normas consubstanciados no Decálogo. Porém, para surpresa e ira de Moisés, ele encontrou seu povo cultuando um “bezerro de ouro”, a imagem de um deus egípcio. O povo judeu forçara Aarão, o irmão de Moisés, a esculpir a imagem deste deus, fato que expressava a força da influência cultural-religiosa que comprimiu esse povo em sua vida no Egito ao longo de séculos. Moisés, irado com o que viu, destruiu o ídolo, usando para isto as próprias Tábuas da Lei, que ficaram despedaçadas. Este episódio é extremamente simbólico. Se por um lado, representa, objetivamente, a revolta de Moisés, por outro, simboliza que a nova religião era a única que o povo hebreu deveria professar, religião que impediria/destruiria qualquer outra, que influenciasse o “povo escolhido”. Foi, então, que Moisés retornou ao alto do Monte Sinai, para receber de Deus, de novo e definitivamente, as Tábuas da Lei.

Os Dez Mandamentos são um conjunto de normas comportamentais sociais e individuais, que se fundamentam em rígidos princípios e valores éticos. Comportar-se segundo essas normas se constitui na essência mesma da condição de ser judeu religioso. A religião hebraica, então sendo instituída, é a complexificação, a corporificação, em um sistema religioso, dessas normas e regras de comportamento fundadas nesses valores éticos e morais (cf. a seguir) e a santificação mística da crença em / e do culto a / um Deus único, tradição que veio dos tempos de Abraão e demais Patriarcas.

A seguir, os 10 Mandamentos:

a) Conforme a tradição cristã-católica: 1º - Amar a Deus sobre todas as coisas e, ao próximo como a ti mesmo; 2º - Não usar o santo nome de Deus em vão; 3º - Santificar os Domingos e os dias de guarda; 4º - Honrar pai e mãe; 5º - Não matar; 6º - Guardar a castidade; 7º - Não furtar; 8º - Não levantar falso testemunho; 9º - Não cobiçarás a mulher do próximo; 10º - Não cobiçar as coisas alheias.

b) Registre-se o Decálogo segundo diversas tradições cristãs e judaica, que, em verdade, são expressadas em doze regras: 1 – Eu sou Javé, o Senhor teu Deus, que te fez sair do Egito, da terra onde estavas na escravidão; 2 - Não terás nem adore outros deuses, adore somente a Mim; 3 – Não farás para ti imagens de escultura do que há lá em cima no céu, ou aqui embaixo na terra, ou nas águas; não te ajoelhes diante de ídolos, nem os adore, pois eu, o Senhor, sou o Deus e não tolero outros deuses; Eu castigo aqueles que Me odeiam, até os seus bisnetos e trinetos; 4 - Sou bondoso com aqueles que Me amam e obedecem aos meus mandamentos, e abençoo os seus descendentes por milhares de gerações; 5 – Não pronunciarás em vão o nome de Javé, o Senhor teu Deus; não use o Meu nome sem o respeito que ele merece, pois Eu sou o Senhor, o Deus de vocês e castigo aqueles que desrespeitam o Meu nome; 6 – Lembra-te do dia do sabá, para santificá-lo; guarde o sábado, que é um dia santo; faça todo o seu trabalho durante seis dias da semana, mas o sétimo dia da semana é o dia de descanso dedicado a Mim, o Senhor, teu Deus; não faças nenhum trabalho nesse dia, nem tu, nem os teus filhos, nem as tuas filhas, nem os teus escravos, nem as tuas escravas, nem os teus animais, nem os estrangeiros que vivem na terra de vocês; em seis dias Eu, o Senhor, fiz o céu, a terra, o mar e tudo o que há neles, mas no sétimo dia descansei; foi por isso que Eu, o Senhor, abençoei o sábado e o separei para ser um dia santo; 7 – Honra, respeita teu pai e tua mãe, para que vivas muito tempo na terra que estou lhes dando; 8 – Não matarás; 9 – Não adulterarás, não cometerás adultério; 10 – Não furtarás; 11 – Não darás falso testemunho contra o teu próximo; 12 – Não cobiçarás: a casa do teu próximo, a mulher do teu próximo, seus servos e escravos, o seu gado, os seus jumentos ou qualquer outra coisa que lhe pertença”. (Fonte principal de informação: “O Pentateuco”, Antigo Testamento). No episódio da instituição divina das Tábuas da Lei está, também, a origem da Torá, o livro sagrado da religião israelita.

Desobedecer a estes mandamentos ou descumpri-los implica em pecado; pecado de desobediência à Lei de Deus, ou seja, desobediência a Deus. Do ato de pecar decorre uma punição. É necessário purificar-se para o pecador obter o perdão pelo pecado praticado. O arrependimento é fundamental neste processo em que o pecador busca, diante de Deus, redimir-se de seu erro. Nas religiões abraâmicas há os rituais de purificação. No Catolicismo, a “confissão” a um sacerdote (arrependimento, orações), seguida da “comunhão”, são “sacramentos”, que contêm etapas no processo de superação do pecado, de recuperação da pureza, com o arrependimento e o perdão.

No que se refere ao 6º mandamento (cf. logo acima), há a interpretação de que o Sábado (shabat, do hebráico) é guardado como o dia da salvação da escravidão, da fuga do Egito, da passagem da escravidão à liberdade, da travessia do Mar Vermelho, do Êxodo, para as pessoas individualmente e o povo lembrarem sempre do tempo em que foram escravos no Egito. Esta é a versão constante do “Deuteronômio”. No sábado não se trabalha, ninguém, nem mesmo os escravos, não se acende o fogo nas casas. Porém, a versão mais divulgada é a constante do “Êxodo”, que assiná-la que o Sábado - Sabbah ou shabat - deve ser guardado e, portanto, santificado, porque trata-se do dia em que Deus, após os seis dias ocupados com a “criação”, descansou, no sétimo dia. “Êxodo” e “Deuteronômio” são livros d’”O Pentateuco”.

Há um costume em meio ao povo hebraico chamado “circuncisão”, uma intervenção que é procedida no prepúcio do pênis das crianças, poucos dias após o nascimento. Esta prática cirúrgica entre os judeus, conforme a Bíblia, foi determinada por Deus, primeiro a Abraão - que foi ele próprio circuncidado na velhice -, depois a Moisés, que deveria circuncidar os homens por ele conduzidos no Êxodo. Circuncisão atinge apenas os homens. Trata-se de uma norma rigorosa na religião judaica, que contém em si um importante signo (mesmo físico) de identidade judaica. Note-se que o povo Hebreu foi constituído no convívio com os egípcios, durante a escravidão. No Egito antigo, ocorria esta prática cirúrgica, porém com fins medicinais. Existem registros gráficos (pinturas) e textos em hieróglifos referentes a essa prática médica egípcia. É documental. Assim, é possível ter ocorrido uma influência aculturativa, que envolveu os israelitas, também no que tange à circuncisão. Aliás, cogita-se de influências culturais, inclusive na religião, exercidas sobre o povo Hebreu por diversos outros povos que também os submeteram à escravidão, tais como os Babilônios, os Assírios, os Macedônios (influência grega), os Romanos etc. A narrativa bíblica, no Velho Testamento-Torá, conteria as marcas destas influências ao longo da história deste povo. Entre os muçulmanos, que praticam uma religião também abraâmica, a circuncisão é praticada, porém mais como regra de higiene.

Moisés, ao longo do tempo, durante a mudança do Egito para Canaã com seu povo, deu forma e institucionalizou a religião hebraica, deu corpo à Torá (as leis mosaicas, cerne da religião) e deu início à constituição do Talmude (livro rabínico). Foram quarenta anos de vida no deserto, tempo suficiente para a obra de instituição da religião por Moisés. Os levitas eram os sacerdotes, os rabis, os rabinos.

Deus determinou que Moisés e Aarão, seu irmão, construíssem um grande recipiente, na forma de uma mala ou baú, belamente decorada, a Arca da Aliança, para que as Tábuas da Lei fossem guardadas em seu interior em segurança e com o maior respeito, e nela fossem conduzidas pelo “povo de Deus”. A arca, forte e artisticamente concebida, foi fabricada por Moisés com a ajuda de seu irmão, com o emprego da madeira de um arbusto existente no local, a sarça-acácia (cf. acima). À tribo de Levi foi atribuída a missão de condutora da Arca na longa caminhada pelo deserto em busca de Canaã, a “terra prometida”. Os levitas, grupo sacerdotal, eram os únicos que podiam realizar esta tarefa condutora. À tribo de Levi foram atribuídas por Deus as responsabilidades referentes aos assuntos religiosos, organizacionais, geridas pelos sacerdotes levitas. Foi da mesma forma construído o Tabernáculo - “a casa ou habitação de Deus na Terra” - com a madeira da sarça-acácia. O Tabernáculo teria existido ao longo dos quarenta anos do Êxodo e, depois, na “terra prometida”. Em seu interior era guardada a Arca da Aliança. Ele foi substituído pelo Templo de Jerusalém, conforme veremos.



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