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Reflexões políticas – 3

O conhecimento da natureza e as relações entre os humanos, longe de tornarem os animais ditos inteligentes aliados do próprio meio de que resultaram, fizeram-nos ambiciosos. Dominar tudo e todos, águas, ares, árvores, animais destituídos de consciência; mesmo os outros animais, por eufemismo ditos semelhantes; apropriar-se de tudo quanto lhes fosse posto à frente, impondo suas vontades foi o alimento dessa voraz ambição. E a Terra se fez como é – e ameaça cada dia ser mais ainda. Se. na selva, a sobrevivência ocorre dentro do que se chama cadeia alimentar, deveria ser diferente na sociedade criada pelo homem. Aqui, a consciência (o saber que sabe, que atribui consciência ao descendente do macaco) deveria a sobrepor-se a qualquer outro valor e bússola. As potencialidades do homem, portanto, extravasariam dos limites constrangedores dos outros animais. Nestes, o instinto, no outro, o arbítrio, cujas restrições são determinadas não pela existência de um predador e sua vítima, mas pela concertação entre os membros conscientes de qualquer comunidade. Se, na selva, assiste-se ao monumental espetáculo da sobrevivência, à sociedade humana cabe desfrutar da Vida. A cada passo e em todo momento, prevalecendo o arbítrio de todos, de que dá conta o arranjo político, em especial o que se caracteriza pelo respeito à vontade das maiorias e o respeito e a defesa dos direitos das minorias. Isso reafirma a vontade, não o instinto, como o cerne, a substância de que se faz a Política. Prover os grupos humanos de todas as condições que assegurem, a um só tempo, o livre exercício de suas preferências e a limitação destas às relações equilibradas entre os humanos, portanto, passa a ser o foco das atenções. Não escapam a esse arranjo, qualquer que seja o contexto a que se aplique, os outros animais e tudo o que constitui o entorno onde os grupos humanos surgem, habitam e vivem. Aqui, entenda-se, a ultrapassagem do antropocentrismo exagerado, em grande medida responsável pelas ameaças que o Planeta tem enfrentado nas últimas décadas. O que significa reconhecer o erro em contrapor o homem ao ambiente, como se concorressem entre si. Na verdade, a História o vem revelando, uma depende intrinsecamente do outro, avance como avançar a tecnologia. Esta, pois, deve servir ao aperfeiçoamento das relações do Homem com o seu ambiente, ao invés de pô-los em permanente confronto, de que um saia o vencedor. A relação entre eles, nunca um tipo de competição, exemplar de efetiva e salutar complementariedade.


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