Reflexões de um aposentado

É de Marco Túlio Cícero (106 a.C- 43.a.C) a frase: A História é a mestra da vida. Cada indivíduo é protagonista de sua própria história, ainda que nem todos tenham consciência disso. Talvez porque, conscientes de que há uma história geral de que participam todos os animais chamados racionais, não sejam capazes de refletir sobre si mesmos. E, sobretudo, incapazes de buscar resposta para as mais altas indagações que o ser humano pode fazer-se: quem sou? Por que estou aqui? Qual meu destino? Resultaria inequívoco o compromisso de cada um, fosse levada a sério a máxima do orador romano.

O Mundo não começa com nenhum de nós, nem nosso desaparecimento o levará conosco. A trajetória coletiva, que em determinado trecho nos terá incluído igualmente, terá o rumo que lhe dermos e será forjada do material que teremos produzido. Em síntese: os registros históricos, minimamente que seja, incorporarão nossa contribuição. Daí podermos afirmar que nenhuma sociedade o é diferente dos que a construíram. Tanto elas podem aproximar-se do Paraíso, quanto assemelhar-se ao Inferno, este muito diferente - para pior - do que Dante desenhou.

Sendo a morte o destino de todos, e sendo a História escrita por todos, talvez seja pertinente mencionar o peso de nossa presença, como individuo, ser humano, pessoa dotada de consciência, na construção das relações entre semelhantes.

Conhece-ter a ti mesmo, dizia outro dos filósofos mais festejados e lembrados, Sócrates. Conhecer-se, portanto, traz a resposta para a primeira questão: quem sou? Aqui, as alternativas são numerosas, possivelmente tantas quantos são os habitantes do Planeta. Do ponto de vista coletivo, todavia, reduzem-se as alternativas, delas resultando sínteses do inevitável confronto causado pela maneira de ser e pensar de cada um. Ou seremos orientados pelo mais feroz egoísmo, ou optaremos pela construção de ambiente com enorme vigor fraterno.

Sabidos, portanto, qual nosso destino - a morte, não se sabe quando nem onde; o que somos, egoístas ou solidários - o problema final nos remete à identificação das causas primeiras por que estamos aqui. Uns responderão que o objetivo final é o enriquecimento material, o acúmulo sem limites de bens e o desfrute possível de todos os gostos e prazeres que nos animam. Que nos fazem vivos - em outras palavras. Outros responderão ser sua a missão de colaborar na construção de relações mais justas, respeitosas e pacíficas entre seres diferentes e deles com os demais seres da natureza.

Àqueles que têm olhos para ver a História, sem que a recorrência aos livros seja uma necessidade, não é muito difícil aprender e apreender o sentido da frase de Cícero. Ao longo de nossas vidas, todo átimo contém uma lição. O que não torna obrigatória a prisão ao passado, nem o desdém do futuro. Nem, sequer, o culto fervoroso do presente, como se o ser humano e sua sociedade não tivessem passado e não se encaminhassem, sempre, para o futuro.

Sim, dirão os mais céticos e cínicos ao exagero, mas ao final todos estaremos mortos. Pois a morte, para os que veem a História como a paciente e boa mestra que não convém desagradar é a mola propulsora da mais adequada reflexão humana. Pensando nela, e tomando-a como acontecimento esperado, que mais cedo ou mais tarde ocorrerá, pode-se oferecer ou apenas sugerir aos que nos sucederão as respostas que um dia eles também terão que encontrar. Isso acaba dando resultado de que nem todos cogitam. Refiro-me ao sentimento de imortalidade, a sobrevivência para além da morte física. Algo apenas alcançável quando ainda não descemos ao fundo de toda profundeza terrena - o esquecimento.

Aí também podem apresentar-se outros céticos e cínicos para, apontando exemplos históricos, lançarem o desafio: Átila, o rei huno de quem se diz que de tão perverso nada nascia sobre o solo em que pisava - até ele permanece na memória dos povos. Como ele, Adolph Hitler, Joseph Stalin, Nero e tantos outros de igual índole. O que aprendemos a ser, então, é que dirá de nossa preferência: se por algum dos mencionados ou pelos outros agentes da História, como Jesus. Ghandi, Teresa de Calcutá, Karl Marx, Charles Spencer Chaplin, Marie Curie, Lutero, Martin Luther King, Nélson Mandela e quantos mais.

De nada valeria o livre arbítrio de que todo ser humano é dotado, se não fôssemos capazes de buscar resposta para as questões que arrisco levantar.

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