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Queima e desertificação

Incêndios florestais que devastaram imensa área na região amazônica disputaram, semana passada, as preocupações e os noticiários. Deles primeiro se ocupou a imprensa internacional, mais que os meios de comunicação brasileiros. Algo compreensível, diante da importância do Brasil, onde se localiza a maior floresta tropical do Planeta. A importância não vem apenas do fato de determos a maior riqueza e a maior diversidade de espécies. Por causa disso, e pelo papel determinante sobre o clima terrestre, a Amazônia desperta os mais variados sentimentos - e apetites.

Embora os contemporâneos não o saibam, e não haja muitas pessoas interessadas em fazê-los saber, faz décadas que se tornou percebida essa mistura de sentimentos e interesses. O mais conhecido dos denunciantes do que chamou cobiça internacional foi o professor e historiador Arthur César Ferreira Reis, ele mesmo um amazônida nascido em Manaus.

As posições e as denúncias do ex-governador do Estado do Amazonas e segundo Superintendente da então SPVEA (Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia), nem por ele ter governado por escolha dos golpistas de 1964, foram levadas na devida conta.

No máximo, poderia ser dito terem elas de alguma forma influenciado a criação da zona franca. Desta, porém, não se contabilizam resultados animadores. Pelo menos, se nossos olhos forem postos no futuro.

A acumulação da riqueza produzida por todos se fez em proporção exagerada nas mãos de pífio percentual. A grande maioria contribuiu com seu suor, alguns até com a própria vida, tornando o Estado um dos mais eloquentes sinais da desigualdade econômica e social praticada no Brasil. Lamentável, neste item integramos a comissão de frente!

Manaus, a capital também concentradora - das atividades produtivas tanto quanto da população estadual -, convive com índice de violência inadmissível, sobretudo se sopesados os números que a registram e a renda per capita aqui gerada. Por si só, essa comparação gera a indiferença da maioria da população, quando se renovam as ameaças de que o chamado modelo (para uns, o projeto) é alvo contumaz.

Da parte dos que têm os olhos fixados no passado de gloriosa e afortunada acumulação, já ajuda pouco o argumento de que a zona franca preserva a floresta. Ainda que não esteja suficientemente provado, esse efeito começa a ser pouco considerado. E já demonstra sinais de fragilidade. Em especial, porque todas as oportunidades dadas à permanente atualização do projeto (chamemos assim) foram perdidas. Em meio a repetitivos memoriais e salamaleques aos que ocupavam os postos-chaves do poder, a grande maioria dos poucos beneficiários tratava apenas de ganhar prazos mais dilatados de permanência na acomodação. Nada se sabe que busque tirar proveito do papel regulador da região sobre o clima planetário, para estimular os investimentos diretos, sob controle dos brasileiros. É tarefa difícil, mas as políticas ambientais, em escala mundial, oferecem-nos cacife nada desprezível.

O resultado é a camisa de onze varas em que nos metemos todos. Sabemos do desinteresse - às vezes até da hostilidade das autoridades - dedicado à zona franca, mas continuamos a lhes prestar homenagens e acenar com gestos subservientes.

Queimam-se, assim, não apenas as árvores, mas também as esperanças de todos os que têm oferecido seu trabalho, em geral mal remunerado e sujeito à precarização que os outros defendem com ardor. Constrói-se, portanto, mais que o deserto físico, o deserto existencial.



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