Pundonor e hostilidade

A sucessão de episódios agressivos à democracia põe luz em ingredientes pouco saudáveis em uma sociedade que aspira à modernidade e à civilização. Até recentemente, a direita brasileira tinha certo pudor em mostrar-se. Parecia restar nela e em seus mais representativos líderes o que meu professor de Direito Penal, o querido e saudoso mestre Aldebaro Cavaleiro de Macedo Klautau (UFPA) chamava de oásis de honra. Assim conceituava o líder católico paraense, o lugar mais íntimo na profundeza da alma humana, em que são preservados certos valores morais resistentes e inarredáveis, a orientar a conduta individual. Conhecemo-lo – o conceito, não o professor, antes conhecido -, quando Aldebaro tratava do crime de estupro. Respondia a uma pergunta sobre a possibilidade de a prostituta recusar-se à relação sexual com algum cliente. Obediente à orientação da Igreja Católica Apostólica Romana, e cidadão de seu tempo, mestre Aldebaro dizia na linguagem correspondente à sua fé e preconceito, que “até a mais reles prostituta tem um oásis de honra”. E rematava: “é esse oásis que lhe faz recusar a proposta e lhe atribui o direito de recorrer à Justiça para reparar a agressão”.

Pois bem. Da posição até certo ponto pundonorosa à ostentação dos valores que a animam, a direita brasileira chegou a exageros, muitos deles catapultados pelo ânimo soprado de fontes oficiais. Como se o areal circundante a todo deserto tivesse entupido as raras fontes de água e tornado mais grave a infertilidade e a rudeza do território da alma. Fê-la secar por completo, a ponto de não encontrar limites.

A virulência com que se manifesta a carga ideológica dos direitistas brasileiros está contida em cada ato em que se identificam suas digitais. Mais grave, não se trata apenas da pregação vinculada aos valores conservadores e retrógrados, mas à ação apoiada na violência física e no menosprezo ao direito de terceiros. Além disso, bebendo em fonte acostumada à solução violenta do conflito social, não hesita em ignorar a trajetória de nossa sociedade. Por conta desse erro de perspectiva (que bem pode ser opção consciente, nada equivocada), pensa fazer medrar aqui sementes geradas no viveiro do supremacismo racial e no ódio ao semelhante. Deste o melhor exemplo é o serial-killer, produto típico da sociedade norte-americana. Em fase de intensa e extensa exportação, é bom lembrar.

Cabe dentro da liberdade de expressão a defesa de seja qual for o valor e a ideologia professados. Aqueles aos quais corresponde a frase atribuída a Voltaire: posso não concordar com tudo o que dizes, mas daria minha vida para defender teu direito de o dizeres. Tal fundamento não elimina, antes exige, a possibilidade de ser assegurado ao outro, ao defensor da liberdade, igual direito. E é exatamente na direção contrária a isso que vão os atos praticados pela direita brasileira. Inconformada pelos limites que a Constituição impõe aos governantes, entende de agredir os fundamentos constitucionais do regime democrático, mesmo se a mão dos eleitos foi posta sobre essa mesma Constituição, na hora do juramento indispensável.

Enquanto a democracia exige tolerância e respeito à diferença, seja ela qual for, os direitistas brasileiros entendem-se donos da verdade única e exclusiva, devendo ser excluídos – da vida, inclusive – todos os que divergem. Convivêssemos apenas com as pessoas da direita que pensam e sabem encontrar argumentos, a democracia teria percurso menos turbulento e tortuoso. Porque esses existem. De sua sabedoria e de seu discernimento vem a discrição com que formulam ideias e propostas, fugindo às refregas de rua, ambiente mais propício ao uso da violência física e à hostilidade a tudo quanto traga o aroma e o sabor da liberdade.

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