Pular o muro não dá


O apego ao cargo ou certo sentido insensato de missão acaba por desmantelar cérebros ou interromper a construção autobiográfica. Às vezes, uma justificando a outra, essas duas condições se juntam e impedem a projeção e manutenção de uma imagem que se pensava destoante da realidade indesejável. Por esse caminho tortuoso e nem sempre bem-sucedido, pelo menos quanto a História, caminha o general Hamilton Mourão, vice-Presidente da República. Faz poucos meses, o militar aparecia como o algodão entre cristais, diante das costumeiras e desastradas condutas de alguns de seus pares e de outros círculos próximos e influentes no governo. A designação do general para coordenar as ações na Amazônia, na tentativa de dar um chega-pra-lá no sinistro Ricardo Salles gerou expectativa favorável, ao menos dentre aqueles que alimentavam alguma esperança de que nem todos os membros de um mesmo barco buscam o mesmo porto. Quando, porém, um dos zero à esquerda é o protagonista, o cenário parece inadequado para mostrar firmeza e juízo. A reação do vice-Presidente à resposta da diplomacia chinesa às acusações de um dos filhos do Presidente Bolsonaro deixou tudo suficientemente claro. Não porque o vice resolveu tomar as dores do deputado Eduardo Bolsonaro, o zero-2. Nem porque o lema o Brasil abaixo de mim, os filhos acima de todos já parece constranger todos os escalões oficiais. Há razões muito mais sérias, às quais o general Mourão não lançou o seu olhar. Uma delas, mas não a única, o do uso de rede social para mandar recados. Nosso Jânio eletrônico não apenas se distrai em criar e divulgar mensagens mentirosas, como dispensar auxiliares. A caneta, como o ex-capitão não cansa de informar, sempre ameaça. Outra circunstância refere-se à Presidência da Comissão de Relações Exteriores, de que o filho-deputado do Presidente da República é o titular. Pois a agressão ao maior cliente brasileiro no Mundo saiu em mensagem postada por essa estranha autoridade, um dia aspirante à Embaixada do Brasil nos Estados Unidos da América do Norte. Não bastasse tudo isso, o próprio Ministério das Relações Exteriores chancelou em nota a grosseria cometida pelo zero-2. A biografia de um homem pode assegurar sua entrada na História. Talvez somente o interessado pode escolher a porta que usará – a principal ou a dos fundos. Neste caso, diferente de Atibaia, pular o muro ainda é impossível.

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