Presente ao carrasco

Imagine-se o leitor condenado à morte. Seja qual tenha sido o crime que o levou à condenação, nenhum tribunal conseguiu desfazer a sentença monocrática. É sempre assim, onde e quando a vontade de um está acima da vontade de todos. Nem é difícil chegar ao patíbulo, tão rico o elenco de crimes, os antigos, tradicionais, reiterados misturando-se com novos delitos, criativos uns, toscos e demasiadamente desrespeitosos todos. Para o que pretendo dizer, esses são comentários dispensáveis. Interessa apenas lembrar que o leitor estaria às vésperas de percorrer seu corredor da morte, não demorariam mais uns poucos dias. Não um corredor como o espaço entre uma cela e a câmara de gás, cujo piso sentiu o peso dos pés – e dos pecados, os reais e os inventados – de Caryl Chessman. Nem presumo qualquer semelhança entre o suposto crime que teria levado meu paciente leitor à guilhotina, e os assaltos e sequestros de que o norte-americano foi acusado. Menos ainda, eu esperaria versão cabocla, indígena, preta, mestiça dos livros escritos por Chessman. Neles, o condenado narrou mais que os doze anos que separaram sua condenação e a execução da sentença. Fica por conta do leitor, caso interessado, buscar 2455-Cela da morte, A Face Cruel da Justiça ou A Lei Quer que eu Morra ou ainda o romance O Garoto era um Assassino. Não há, em uma só página desses livros, menção a presente ou mimo oferecido pelo condenado aos seus algozes. Nem lhe foi dada a mínima oportunidade de fugir à responsabilidade pela prática dos delitos. Mas você, caro leitor, desatento eleitor também, qual o crime que e por que pagará? Por acaso terá, em algum quase esquecido momento de sua tranquila vida, confiscado parte do salário pago aos seus empregados? Impedido a ação da Polícia perseguidora de delinquentes próximos? Ou, ainda, teria negado socorro aos enfermos, vendido os bens de outros a muito custo conquistados? Mais grave, por que exigir de você, sobre quem pesa apenas o pecado da decência ou, admita, da ignorância, o presente que deixará você sem futuro? Por que assumir responsabilidade intransferível, quando você, caro leitor, não pede mais que o direito de viver? Imagine se a Caryl Chessman fosse solicitado fornecer o botijão de gás que o mandaria para a eternidade! E fosse difícil, quase impossível encontrar a lâmina afiada que separará sua cabeça do pescoço... Enfim, você é quem sabe onde põe a cabeça.

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