Prefácio de Aleivosias poéticas


Altamir Bastos

Os poetas sofrem com estereótipos e avaliações equivocadas. É muito difundida a impressão de que para ser poeta é necessário ser boêmio, irresponsável, antissocial. Herdada do passado e, vamos ser sinceros, conservada cuidadosamente por alguns a quem esta postura interessa porque os absolve de vários desvios de conduta, a ideia do poeta marginal, do poeta doentio já não se sustenta nos dias atuais. Mas já reinou quase absoluta: Drummond mesmo, que tinha uma vida prosaica e quase burocrática, disse uma vez que Vinicius tinha sido “o único poeta que vivera como poeta”.

José Seráfico é poeta – mesmo quando escreve contos. Não porque – como disse Drummond de Vinicius – viva como poeta, mas porque vê a vida como tal, daquela forma particular que ultrapassa a superfície dos fatos e dos sentimentos e desvenda-lhes as entranhas, devassando suas estruturas mais íntimas.

Quantos não nascem com este destino... Mas para cumpri-lo, é preciso mais. Há que adquirir domínio e intimidade com a palavra, com os meandros e armadilhas que a língua escolhida oferece. Como qualquer artista, o poeta deve dominar o veículo de sua arte para expressá-la melhor. Quantas ideias geniais não se terão perdido por falta deste cuidado...

Está na hora de nós, os leitores, fazermos justiça a eles. São pessoas comuns, como nós, que trazem dentro de si as sementes da poesia, como de todas as artes. Se eles têm algum privilégio, é o de terem permitido que as da poesia brotassem quando elas tentaram, contrariando a tendência predominante da humanidade que é a de sufocá-las. E de terem desenvolvido o que poderíamos chamar “o olhar do poeta”.

Este si, os torna diferentes e especiais. Os poetas não veem o mundo nem a si mesmos com olhos comuns. Sua capacidade de ir além da superfície dos fatos e sentimentos faz com que consigam desvendar o arcabouço afetivo, ético e moral que os originou e os sustenta. Não é à toa que Freud foi até o fim da vida um ávido leitor de poesia.

Mas há duas qualidades sem as quais ninguém pode se dizer poeta: coragem e generosidade. Porque não é fácil, como todos sabemos, enfrentar algumas descobertas que desnudam nossos subterrâneos e os de nossa sociedade. E mais difícil ainda é trazê-las das profundezas para a luz do sol. Os poetas são dos poucos que têm a coragem e generosidade de fazê-lo, expondo a si mesmos de uma forma quase dilacerante e impondo à sociedade reflexões pelas quais muitos deles pagaram com a própria vida.

Fora disso, é trabalho e mais trabalho. Como ourives incansáveis, contrapondo diariamente um alto nível de exigência contra a vaidade saudável que move os artistas, vão polindo, cortando, lixando. Na casa de Edgar Allan Poe, que gostava de alimentar a lenda de que escrevera “O Corvo” num jato de inspiração, foram encontrados após a sua morte dezenas de esboços do poema...E Eça de Queiroz gostava de dizer que escrever é mais rasgar do que publicar.

José Seráfico tem tudo isso – e mais um rol de qualidades humanas que aprendi a invejar nos mais de trinta anos em que o conheço. Que poesias, que contos poderíamos esperar de um homem assim? Estas que agora lhes entrega, plenas de erudição linguística e honestidade afetiva. É ele, total e transparente, como nós seus amigos aprendemos a admirar e imitar. São pequenas joias ainda encharcadas com o suor e lágrimas que cada um trazia ao nascer e que continuavam no longo processo de polimento e depuração que seguia. Eu sei porque vi.

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