Prefácio da Segunda edição de Relatos subversivos*


Uma década transcorreu, desde que fizemos estes relatos - subversivos, como o éramos na juventude. E como alguns de nós permanecemos sendo. Porque subversivo é tudo quanto se oponha à ordem estabelecida. Meritório, quando tal ordem compromete a dignidade do ser humano, seja explorando-o, seja gerando e aprofundando a desigualdade que ainda remanesce.

Subversivo nos chamavam os que subverteram a ordem constitucional instaurada em 1946. Como o fizeram tantos outros, sem esquecer os republicanos de 1889, muitos dos quais juravam lealdade ao Imperador e à ordem, naquele mesmo 15 de novembro. Para não falar de outros momentos.

Já não estamos todos os que deram testemunho daquela infausta época. Nem por isso são menores a força e a promessa desta segunda edição. Se nada mais que este pobre prefácio se acrescenta, muitas e novas experiências somam-se à trajetória de cada um de nós, que os escrevemos. Dos que morreram resta, além da saudade, o respeito por se terem dedicado a uma luta que só aparentemente é inglória. Por isso, sentimo-los conosco - ontem como hoje. E como sempre.

Não importa que antigos companheiros, ou os que, chegados depois, empolgaram o poder e mostraram-se tão desprovidos de méritos quanto os que um dia disseram combater. As fraquezas humanas não podem ser descartadas, sobretudo porque é impensável a construção de uma sociedade de anjos. E nem é disso que temos tratado, como tantos, ao longo de nossa vida.

Exigível, contudo, é a busca de uma sociedade justa, fraterna, solidária. Por isso, soam tão atuais os motivos porque nos tornamos subversivos. E continuamos a sê-lo.

Mais velhos dez anos, aproveitamo-nos do fato de nossa sobrevivência para tornar mais filtrados nossos conceitos e juízos. Se já não aparentamos a vibração de quando éramos jovens, o rigor de nossa análise, o fortalecimento de nossas convicções e a tranquilidade de quem tem ideias e ideais servem de compensação.

Pedro Galvão de Lima, poeta ontem e hoje que não se deixa enredar nas armadilhas poéticas e faz delas excelente motivo de prática política ; João de Jesus Paes Loureiro, que se tem endurecido sem jamais perder a ternura, como a beleza e a harmonia de seus versos o dizem; André Costa Nunes, a quem a vida proporcionou experiências que nos têm ensinado; Isidoro Alves, cada dia mais firme nas trilhas do conhecimento; Ruy Antonio Barata, o mais jovem de nós, mas também o que experimentou período ainda mais difícil naquela noite que durou 21 anos - todos eles reafirmam neste momento o que escreveram, faz uma década.

Também Ronaldo Barata e Roberto Cortez, cuja memória e cuja saudade se perpetuam em nós e em quantos desejam uma sociedade justa, continuam presentes. Nas páginas desta segunda edição, mas sobretudo no coração e na mente de todas as pessoas que acreditam na possibilidade de fazer um mundo melhor. Mesmo que para isso sejam chamados de subversivos.

Convivemos, nestes dias turbulentos que anunciam novo período de guerra fria, com a perda de Nélson Mandela, um dia subversivo como nós. E como tantos outros, mesmo os que não titubearam e participaram da luta armada em seus respectivos países. Ou os que, embalados pelo sonho de uma sociedade humana fraterna e igual, buscaram em outras terras a realização da utopia que um dia se tornará realidade. Refiro-me, em especial, a Ernesto Guevara de la Serna. Como posso referir-me a Ben Gurion, que não tendo terra alguma, um dia pegou em armas na tentativa de criá-la, menos para si que para seu povo.

Todos, portanto, correspondem ao que os mantenedores da injustiça e da desigualdade sempre chamam de subversivos. Não o tivesse sido, igualmente, um certo nazareno nascido diz-se em pobre manjedoura.

Guerrilheiros! - proclamam com o ódio a lhes produzir espuma na boca. Mortos, muitos são glorificados e ensejam piedosas e ao mesmo tempo entusiásticas manifestações de admiração e apreço.

Poucos os que percebem na reverência a ponta de inveja e o muito de hipocrisia. A inveja dos que, sabendo-se condenados aos desvãos da História, não deixam passar a oportunidade de mostrar-se compreensivos, tolerantes, mesmo se são contados dentre os que impuseram pesadas penas aos agora incensados defuntos. Pilatos foi um deles.

A hipocrisia não consegue esconder o muito de satisfação porque se terão desvencilhado de presença tão incômoda como desmoralizante. E lhes traz íntima alegria, pela possibilidade de permanecer lutando para impedir a chegada ao objetivo a que se dedicaram os agora louvados mortos.

Resta lembrar quanto se confirma o fato de que, se a História não pode excluir dela nem um só ser humano, a historiografia é produzida pelos que vencem. Até que isso também se desmanche no ar. Para isso pretendemos todos concorrer. Mesmo à custa de pechas e apodos. Até para os que, um dia, foram chamados pelos defensores do status quo de inocentes úteis, é sempre melhor ser ambas as coisas. Piores que eles são os maliciosos e inúteis. E como os há!...

Perdoem-me os leitores desta edição repetida, se não estive à altura de reproduzir, em qualidade e talento, o prefácio redigido pelo nosso querido Luiz Moura, o Mourinha. Vontade e tempo não me faltaram. Ter-me-á faltado o brilho com que o engenheiro prefaciador enriqueceu um trabalho em tudo, e por tudo - coletivo. Como toda e qualquer obra em que o homem esteja envolvido.

Manaus, 08 de dezembro de 2013

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*Sumauma Editorial, Belém, PA, 2014. A primeira edição, foi editada e publicada em 2004, pelos autores

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