PRECISAMOS COMBATER A PESTE

Lúcio Carril*


Albert Camus em A Peste e na Peça Estado de Sítio nos mostra toda sua angústia e sufocamento com a opressão de Estado. No romance, a peste é trazida pela ameaça nazista à França e em Estado de Sítio, o cometa da ditadura franquista na Espanha deixa seu rastro de destruição.

Na leitura, é impossível não relacionar o absurdo, referência do trabalho de Camus, à situação que vivemos hoje.

O Brasil tem tristes experiências com situações de supressão de direitos e concubinato com o fascismo por ditaduras civil e militar. Ou seja, essa angústia tem história, apesar de afetar um segmento minúsculo da sociedade, justamente aquele reconhece a importância da democracia na busca pela liberdade.

É cedo e não dormi.

Falo numa metáfora simples, pois ao olhar uma nação, o país onde nasci, cresci e vivo, se afundar em "tenebrosas transações" o sono não vem e não haverá de vir enquanto não superarmos todo esse escárnio. Meus olhos continuarão abertos, às vezes com fogo e outras vezes com lágrimas.

Camus escreveu para registrar um momento histórico e a ação destrutiva do fascismo. É claro, na sua escrita primorosa é possível sentir a dor de ver a opressão se instalar e, avassaladoramente, demolir sonhos e deslocar a realidade para o campo do absurdo. Escrever é uma forma de resistência e sobrevivência existencial, também.

No Brasil de hoje os sentimentos se renovam. Não os bons sentimentos, mas aqueles que atacam a alma e dilaceram o espírito enquanto verve criativa. Todos os dias temos encontros com o descalabro, com a tristeza e com a indignação. De um lado, um governo trágico, com um presidente insano que agride e reduz à cinza tudo que havia e há de bom no país. Do outro lado, contracenando com o facínora, parcela significativa do povo, que aplaude a devastação moral da nação brasileira e se regozija com os piores valores da humanidade.

Não dá pra dormir. A angústia nos sufocará enquanto a insanidade perdurar.

No final de A Peste, Camus nos alerta:

“o bacilo da peste não morre nem desaparece nunca, pode ficar dezenas de anos adormecido nos móveis e na roupa, espera pacientemente nos quartos, nos porões, nos baús, nos lenços e na papelada”.

Precisamos combater a peste.

Continuarei caminhando de mãos dadas com meus companheiros e companheiras, aqueles que insistem em resistir e se indignar. Há um desafio e uma missão em construir uma nova história com bases sólidas na democracia e no humanismo.


* Lúcio Carril é sociólogo, pós graduado em Gestão e Políticas Públicas pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo.

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