Por democracia, justiça e solidariedade*


Belém sedia uma das mais importantes reuniões do Planeta. Criado com o propósito nem sempre explicitado de contrapor-se ao convescote que os países ricos promovem em Davos, o Fórum Social Mundial chega à sua quinta versão. A reunião inicial, realizada na capital do Rio Grande do Sul, chamou a atenção do Mundo para uma proposta cujo ineditismo somente se justifica pela acomodação ou a pouca virtude da espécie humana – é possível construir uma sociedade diferente da que vimos experimentando.

Nascido em 2001, o Fórum tem sua oitava versão realizada fora da cidade que o abrigou em 2001, 2002, 2003 e 2005. Em 2004, reuniu milhares de participantes na Índia, sendo que o de 2007 teve lugar em três continentes (África, Mali; Ásia, Paquistão; e América, Venezuela). O de 2007 realizou-se no Quênia. Do extremo sul do Brasil, depois de passar por outros países, eis que o FSM tem Belém do Pará como palco.

Desde o encontro inaugural, o clima que se estabelece dentre os participantes do evento muito se aproxima do ambiente que cercou a campanha eleitoral e a eleição do presidente dos Estados Unidos da América do Norte. A posse de Barack Hussein Obama se encarregou de confirmar a proposta – mudar é mais que necessário.

É admissível certo desagrado dos moradores das cidades que sediam acontecimentos de tal porte, como são indiscutíveis os incômodos e restrições a que são submetidos os lugares marcados por expressiva recepção de turistas. Aqui e em qualquer parte do Mundo.

Já ouvi de muitos moradores de Belém, queixas sobre a enchente de pessoas nas ruas, às proximidades do Círio de Nazaré. Sem que isso anule o forte sentimento cristão da população ou torne menor o entusiasmo pela procissão e a festa em si.

Há como um inchaço nas cidades-sede do Fórum, nem sempre preparadas para receber tanta gente, ao mesmo tempo. Por isso, a prestação de serviços perde em qualidade, os transportes urbanos circulam lotados, aumentam os riscos da insegurança – para os locais e para os visitantes.

O que não se pode afirmar, contudo, é a dispensabilidade de reuniões como as que compõem a variada programação do FSM. Seja pela riqueza da programação, seja pela oportunidade oferecida a todos quantos queiram participar dos debates, o Fórum vem mantendo o propósito de construir um outro mundo, “mais solidário, democrático e justo”, como consta em seus documentos.

Na verdade, o caráter plural da iniciativa se evidencia (não houvessem outros sinais a atestá-lo), pela realização de cultos religiosos de diversas confissões, sem preconceito de qualquer ordem. Também a abordagem dos temas integrantes da extensa programação não exclui quem quer que deseje discutir abertamente os problemas que afligem a sociedade contemporânea.

Vale ressaltar a presença, nas sucessivas reuniões, de representantes de organizações que operam em escala local, regional e mundial, oriundos dos mais diversos países e atuantes nas mais diferentes áreas da atividade humana. Não se trata de um evento destinado a aproximar apenas os doutos, aqueles que lograram atingir os mais altos graus de escolaridade em seus correspondentes países. Muitos membros da elite intelectual mundo afora estarão presentes, mas a discussão de que participarão (como têm participado ao longo dos anos) contará com a presença ativa de representantes dos excluídos, qualquer a latitude por eles habitada.

Sabe-se quanto a discussão dos temas de interesse comum tem sido sonegada à parcela majoritária da sociedade, no Brasil como em praticamente todos os países do Mundo. Daí que se insista em manter relações sociais fundadas na desigualdade, por isso produtora da pobreza em ampla escala, como resultado do esforço permanente por produzir riquezas. Não é quanto a essa produção, pois, que devem centrar-se os debates, mas quanto à forma como os diversos produtores dessa riqueza são aquinhoados. Em palavras mais simples, põe-se em questão – e já não é sem tempo – a sabedoria de manter e defender o status quo sabidamente injusto e egoísta ou, ao contrário, trilhar caminhos que nos levem à verdadeira democracia, fundada na solidariedade e na justiça.

Belém está tendo, assim, a oportunidade de mostrar quanto ainda resta do espírito cabano por todos admirado, sobretudo porque foi capaz de experimentar, singularmente, um governo realmente popular, em pleno século XIX.

Importa pouco que muitos tenham renunciado à luta exemplificada na Cabanagem. Importa pouco, igualmente, a tentativa de levar-nos a crer na validade do pensamento único. Exemplos não faltam de que é possível construir um Mundo melhor, mais fraterno, democrático e justo. Pois é essa proposta-síntese do Fórum Social Mundial, que os participantes deste ano terão a oportunidade de discutir.

A reflexão sobre a sociedade e seus problemas, o papel dos agentes sociais e a articulação entre organizações e movimentos e profissionais das mais diversas vocações é que poderão levar à superação de um modelo que mesmo seu mais ostensivo representante, os Estados Unidos da América do Norte, parece empenhado em superar.

Diferentemente do que um dia alguém afirmou, a história não acabou, mas pode ser escrita por outras linhas.

---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------*Publicado em O Liberal, Belém, PA, 27/janeiro/2009.

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