Ponte

Para aqueles brasileiros nos quais ainda resta um mínimo de humanidade, torna-se desde anteontem obrigatório pedir perdão. Menos como punição pelo que têm concorrido para o infamante e desumano tratamento dispensado aos irmãos negros. É justo esperar isso deles, porque o contrário dá o direito de os ver implicados diretamente nos crimes de racismo em moda nos dias deste período tão tenebroso de nossa história. O documentário Falas Negras, dirigido por Lázaro Ramos e transmitido pela Globo, fechou um dia rico de lições para os interessados em aprender. Seja qual for o número destes, um que seja basta para constatar o opróbrio em que incorreria, pondo-se à margem de movimento que há de fazer os negros integrados à saudável sociedade de semelhantes, para muito além da retórica - e da mais nefanda hipocrisia. Desde a sexta-feira, o noticiário pôs em destaque a repercussão do covarde assassinato de um negro, num supermercado da capital gaúcha. Para não fugir à rotina, os executores são dois agentes de – triste e hedionda ironia! – segurança do estabelecimento. Os homicidas sequer dispararam seus revólveres, pois matar o outro exigiu apenas porretes e joelho. A morte fica mais módica. Sim, o joelho de um dos marginais, porque também essa é arma usada em larga escala na metrópole, que nestes assuntos tem feito escola. Digam-no os serial-killers, o produto típico de sociedade desajustada e prepotente. O negacionismo em voga não se fez ausente, desta vez expresso por ninguém menos que o vice-Presidente da República. Para ele, o racismo é fenômeno ausente no Brasil, não passando de uma tentativa de importar essa conduta de outro país. O general Hamilton Mourão deu o nome de origem, os Estados Unidos da América do Norte, onde ele morou e estudou. Nada

incompreensível, diante da inexistência de incêndios florestais, como o registrou o nervo ótico do vice gaúcho. Talvez ainda saberemos dele que a sociedade brasileira ficou alheia aos fatos: o assassinato de um cidadão brasileiro e as manifestações realizadas em muitas cidades brasileiras. É possível que fatos imediatamente posteriores expulsem do noticiário essas demonstrações, de um lado e de outro. As pessoas que se dizem de bem, no entanto, têm mais uma oportunidade de mostrar correspondência entre o que pensam e dizem, e o que fazem. Uma espécie de ponte entre a barbárie e a civilização. Atravessa-la é o que resta. Ou não.

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