Política e consciência


Curiosa a política no Brasil. Os costumes e os valores sobre os quais estão fincadas suas bases não permitem considerá-los ou tratá-los como Política. Aos que se interessam pelo tema, levando em conta o que dizia do homem o filósofo Aristóteles, cabe refletir sobre os conceitos – de humano, animal, Política e essência. Comecemos por este último, fiéis ao método dedutivo, do geral para o particular.

Admitir o homem portador de traços essenciais desde sua origem seria extrapolar o território do conhecimento e lançar-se no temerário caminho da irresponsabilidade. Além do DNA impresso no código genético, nada mais vem do berço de qualquer animal. O que, em primeiro lugar, o homem é. Tudo o mais vem depois, inclusive levando-nos a atribuir a essa entidade natural o próprio qualificativo. Estamos, portanto, diante do ser dito humano, porque nele reconhecemos qualidades – condições, diria Hanna Arendt – capazes de diferencia-lo dos outros animais. Torna-se imediatamente claro, então, ser a essência resultado da existência humana e das relações que ela, mais que propiciar e oferecer a cada indivíduo, exige. Refiro-me ao processo de socialização, da vida comum entre seres da mesma categoria. Estudos e descobertas antigas e recentes o têm revelado. A essência do ser dito humano, portanto, é condição adquirida, alheia aos marcos genéticos de que todo ser vivo é portador.

Porque igualmente dotados do livre arbítrio e da consciência, os animais humanos têm nessas características o inspirador de sua percepção – do seu entorno e de tudo quanto pode ser captado pelos sentidos. Para muitos (talvez Freud dissesse todos), mesmo coisas que estão fora de sua percepção ordinária. A percepção, de seu lado, deixa-se influenciar pelos valores e experiências cultivados e ou adquiridos. Tome-se aqui o livre arbítrio como a disponibilidade do que se chama vontade. A recheá-la, desejos, sonhos, aspirações, interesses, sentimentos. Tudo isso cercado pelo que chamamos valores, estes captados e absorvidos ou rejeitados no convívio com os semelhantes, como indicado acima. Esse convívio é o ambiente em que se vai constituindo a essência do ser humano. Os existencialistas sabem melhor disso.

Assim, penso corresponder à Politica, simplificada e ainda assim precisamente, o exercício da vontade humana. Quando tal vontade se dirige a um objeto particular, individual, privado, ainda não teremos chegado ao território da Política. Ou só por exceção tal território será alcançado. Se, porém, dirigimo-nos a questões comuns a todos ou a um coletivo de pessoas, a problemas legitimamente considerados sociais, aí já se terá penetrado no ambiente político.

A vontade, sendo comum a todo humano, tanto pode valer-se para exercitar-se, do conhecimento ou da ignorância. Aqui, a educação, a ciência e a cultura têm lugar privilegiado. Não apenas o aprendizado a que se dá o nome de escolaridade é capaz de suprir conhecimento, eis que ainda está por provar a absoluta dispensabilidade da escola da vida. Os autodidatas podem dize-lo. Mais, ainda, os que dela se têm beneficiado ao longo dos séculos.

Não há como negar a pluralidade das formas de conhecimento, tanto quanto nenhuma delas deve ser ignorada. De algum modo, em algum momento e lugar cada qual pode ser aplicada. Até porque, sendo processo contínuo e cada nova verdade trazendo consigo a probabilidade de ser adiante substituída, a Ciência coloca em questão toda forma particular de conhecimento. Sem combate-los, mas com a intenção de testá-los, enriquecê-los, pois a busca da verdade é sua bandeira. O método, sua arma.

A consciência, assunto de diversas áreas profissionais (filósofos, psicanalistas, psicólogos, educadores dentre tantos), apresenta-se em camadas, como ensinou Freud. Uma delas subjaz no mais íntimo dos indivíduos, o que se diz ser inconsciente. Escondido, sempre há o momento em que se manifesta, como atos postos ao escrutínio dos contemporâneos. A mais conhecida transposição do que está no inconsciente das pessoas para o ambiente externo é chamada ato falho. Mas isso pode ser assunto para especialistas.

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