Polícia e violência

Grande parte da população brasileira cultua firmemente a máxima de que bandido bom é bandido morto. Podem ser eles os mesmos que pedem o fechamento do Poder Judiciário. Até serem descobertos os atos delituosos em que se têm envolvido. Aí então recorrerão, quase mendicantes, ao Poder por cuja extinção tanto se empenham. Escaparão, por certo, do joelho no pescoço que pode matar um negro nos Estados Unidos da América do Norte, tanto quanto asfixiar outro negro, em São Paulo. Esta última cena, reprodução na versão tupiniquim do que aconteceu na metrópole.

Quem tenha assistido à entrevista do Secretário da PM do Estado mais rico do Brasil não pode deixar de indagar-se sobre aspectos ligados aos dois acontecimentos, ambos correspondentes à barbárie instalada neste Planeta resistente ao aplanamento. Lá e cá, a desigualdade atribuiu a servidores armados e pagos com o dinheiro de todos o direito de decidir sobre quem deve e quem não deve morrer. Isso faz pensar na plausibilidade de coerência, como fundamento do bandido bom é bandido morto. Para que pagar magistrados, auxiliares, imóveis, serviços e equipamentos correspondentes ao Poder Judiciário, se um policial armado pode substituí-los no julgamento sobre a vida e a morte de todos?

Por mais que a autoridade paulista tenha aparentado preocupação com o mais recente dos fatos, foi no mínimo bizarra a solução anunciada: o treinamento em massa da oficialidade e dos sargentos da Polícia Militar paulista. Ora, ao que se saiba, não é comum ver oficiais pessoalmente confrontando as vítimas. Essas é tarefa entregue à ação dos graduados e soldados. Os outros comandam tais operações, e deles se pode presumir estarem sempre bem treinados. Adestramento de líderes e chefes não costuma sujar os uniformes.

O que (re)aprenderá a oficialidade da PM-SP? Segundo o Coronel entrevistado, sobre os procedimentos usados na abordagem de suspeitos. Uma deles, destinado a constatar o porte de arma. A insustentabilidade da resposta vem quando o próprio Secretário pede a repetição na tela, da gravação feita na ocasião do confronto: preso ao solo pelo joelho do soldado armado posto sobre o peito, o suspeito não aparentava ter qualquer arma. Nem ao telespectador menos desatento escapou a possibilidade de a verificação normal, recomendável, exigível, obrigatória - o homem está armado? - fosse feita com a ajuda do outro soldado. De costas para o ato de agressão praticado pelo colega, o outro tratava de verificar a regularidade do condutor. Se tinha a carteira de habilitação.

Ora, convenhamos, o caso pouco tem a ver com procedimentos. Ele se insere em campo mais amplo, aquele que diz respeito ao modo como encaramos o semelhante visto teimosamente como diferente, inferior se não porta uma arma e é pago pelo poder público para nos dar segurança. Se o treinamento se limitar aos procedimentos, não aos valores e políticas que orientam as ações policiais, mais uma vez se terá jogado dinheiro pelo esgoto.

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