Peregrinação oprobriosa

Talvez por ser de uma geração muito antiga, ainda alimento certos hábitos pouco observados pelos modernos. Em especial, quando a suposta e alegada modernidade assenta-se sobre valores diferentes dos que cercaram meu nascimento, formação e chegada à maturidade. Se envelheci nestes quase oitenta anos de vida, pior para mim. À saúde mental (que nem posso assegurar plena), juntou-se certa atenção nos pequenos fatos, estes sendo o conteúdo majoritário de nossa convivência social. Se ganhei algo durante tal trajetória, foi a percepção nítida do que é cavernoso e do que, ao contrário, é transparente, sempre cheio de sol, a furar meus olhos cada dia mais atentos e alcançando espaço menos distante. Utopias curtas, poderia dizer assim. Essas, porém, me fazem estranhar fatos prosaicos, tanto quanto oprobriosos. Para aumentar meus (maus) sentimentos - o de nojo à frente de todos - venho de tempo em que um membro da mais alta corte de Justiça do País tinha no evidente, cristalino e cabal saber jurídico e na conduta irreprochável (perdoados os pequenos vícios que nos fazem humanos), a base da indicação para o posto. Constato cada dia mais já não ser assim. Se tão importantes variáveis agora pouco importam, impõem-se outras, só que o timbre da constância as caracteriza. Daí a vergonhosa peregrinação a que se submete o candidato a posição justa e legitimamente desejada pelos profissionais do Direito (não os que apenas se contentam em ser operadores), até chegar ao Supremo Tribunal Federal. Disso nos dão testemunho o percurso e a agenda do desembargador Kássio (com K) Marques Nunes, nestes dias infamantes. Se Kássio com K soubesse quem foi Annaeus Seneca e algum dia tivesse conversado com meu pai, teria seus ouvidos sempre atentos à sentença do filósofo romano: Antes queria ser derrotado no bem do que vencer no mal. Expresso entre 4 a.C e 65 d.C. o pensamento daquele homem antigo tem mais a ver comigo que sua sujeição ao lambe-botas atualizado, feito beija-mãos (ou humilhante beija-pés?) pós-modernos.

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