Perdas e ganhos

Como se o Brasil ignorasse o fenômeno da extrema desigualdade, discute-se tudo em ambiente que parece assemelhar-se ao da Finlândia - ou Noruega, apesar dos pesares. Algo que traz para o séc. XXI a França do final do séc. XIX. Comam brioches os que não têm pão. Quando traduzido em outras palavras, nem por isso os sentimentos conseguem esconder-se. Isso é o que mais temos visto nos últimos meses, mesmo em meio a uma crise progressiva de que não muitos terão a deplorar. Também aqui, um resultado da organização dialética do Universo, em que os fenômenos sociais teimam em reproduzir os arranjos sociais. Ou seja, haverá sempre o lado bom em qualquer coisa. Busquem-se os beneficiários, compre-se-os com os perdedores, e tudo será compreendido. Não seria diferente com a pandemia que ameaça matar, aqui como em outros lugares, parte expressiva da população brasileira. Expressiva quer dizer importante, como deveria ser cada cidadão, visto apenas como ser humano. Não que a morte natural deva ser negligenciada, mas só ela admitida. Se nada fizermos para torná-la menos agressiva, estaremos ajudando o infame trabalho das parcas. O covid-19 deixará, além dos milhares de seres humanos mortos, uns poucos gratificados. Alguns, mesmo tendo que fazer o que mais lhes agrada - ganhar dinheiro, mesmo à custa do sacrifício da vida de tantos. Ao ex-Ministro da Saúde já se começa a atribuir alguma negligência inicial, em certa medida responsável pela situação de quase falência a que chegou o sistema nacional de saúde. Também a falta de tecnologia para acompanhar o processo de contaminação em todo o território nacional. Informatizar tudo parece a única solução. Tanto quanto vem sendo recomendada a educação a distância, com sinais de que a escola presencial está na alça de mira dos interessados. Interesse que só por acidente tem a ver com a melhoria da qualidade de ensino. Procuremos no palheiro de nossas dificuldades encontrar as agulhas que esperam o momento triunfal, passada a pandemia e chorados os mortos que ela oferecerá no altar do sacrifício imposto pela religião em ascensão.

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