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Passaporte sem restrição

Várias exclamações constam dos depoimentos sobre a capital federal. Do fato de ser mostrada como uma obra de arte de autoria compartilhada entre Oscar Niemeyer e Lúcio Costa, muito se tem falado e escrito. Sempre concluindo o período com uma exclamação. Lá, a despeito da mesquinha umidade que arrebenta narinas, existe um azul que parece propriedade exclusiva do planalto central. Do horizonte amplo, a espalhar-se à frente do observador e levá-lo aos sonhos inspirados no próprio criador da cidade – JK – também muitos registros são encontrados. Mesmo a inexistência das esquinas é deslembrada, porque o tráfego de veículos tem sua eventual letalidade compensada pelo sistema viário, às vezes confundindo o neófito na cidade. Leio agora, porém, a possibilidade de que as condições que colocam Brasília com o mais alto nível de bem-estar de todo o País estejam às vésperas de ser rebaixadas. Chega a três a média de mortes de motociclistas, apesar da organização do sistema viário de lá. Por contraste, busco compreender por que é assim. No cotidiano de Manaus, onde vivo há quase 60 anos, não sei de algum número relacionado àquela forma de seres humanos matarem e serem mortos. É na capital amazonense que se concentra o grosso da produção de veículos de duas rodas, saindo na frente as motocicletas, que meu (raro) mau humor chama passaporte para a morte. Também nunca li ou vi gráficos e quadros tão ao gosto de certo tipo de analista, que nos revelassem qual o montante de dinheiro entregue pelos contribuintes (os que pagam impostos, lembre-se sempre), para gerar a euforia e as comemorações pelo atingimento de metas cada dia mais ambiciosas na produção dos veículos-matadores. Muito menos, quanto custa aos cofres públicos oferecer os serviços de atendimento de urgência e os que vêm em seguida, sempre que há um acidente envolvendo motociclistas, seus passageiros e quem nada tem a ver, com o veículo acidentado e o acidente registrado. Impossível esquecer quantas famílias são privadas da companhia de membros sacrificados nas ruas, além daquelas que acumulam a incapacidade de trabalhar de algum de seus parentes, vitimados em acidentes nas ruas. Esqueço, propositalmente até, que essa mortalidade conta com a ajuda do poder público, mola que faz maior a cada dia a produção desses passaportes para a morte.

 

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