Partido Comunista da Rússia / U.S. - Parte III - (22/06/2018) - Orlando Sampaio Silva

A - Fatos importantes, que marcaram a Revolução Russa:

- Antecedentes:

a) Fundação do Partido Comunista da Rússia: 01/01/1912 (em consequência da transformação operada pelos "bolchevistas" liderados por Lenin, do Partido Operário Social Democrático da Rússia em Partido Comunista);

b) Revolução das operárias russas de cunho social-democrático: 23 e 24/02/1917 (primeira revolução russa de 1917– fevereiro);

c) Abdicação do Czar Nicolau II: 15/3/1917; Nicolau II e sua família foram executados pelos "bolchevistas" em 17/7/1917.

d) Governo do social-democrata Kerensky: 21/7/1917 a 07/11/1917 (Kerensky pertencia ao Partido Socialista Revolucionário).

- A Revolução de Outubro:

a) Os "bolcheviques" invadiram o Palácio de Inverno - o Palácio do Governo -, em Petrogrado: 25/10/1917. Kerensky ainda se encontrava no Poder, vindo a ser afastado do mesmo em decorrência deste acontecimento. Esta foi a segunda revolução russa em 1917. Com esta, o Partido Comunista passou a dominar totalmente o governo;

[Neste Palácio de Inverno, hoje, está instalado um dos maiores e mais importantes museus de arte do Mundo, o Hermitage; quando, há alguns anos atrás, acompanhado do meu filho, professor Márcio Seligmann Silva, visitei o Hermitage, na Rússia, na, atualmente, cidade de São Petersburgo (antiga Petrogrado e depois Leningrado), chocado, senti o peso da história, ao me perceber no cenário em que transcorreram aqueles graves e influentes acontecimentos políticos de 1917]

b) Posse de Lenin na Presidência da Rússia (substituindo Kerensky): 08/11/1917. No dia anterior Kerensky havia sido excluído do governo.

- A Rússia na I Guerra Mundial:

A Rússia czarista entrou na I Guerra Mundial, em 1914, aliada à Sérvia, à Inglaterra e à França; nesta hecatombe, os contendores adversários eram a Alemanha, o Império Austro-Húngaro, o Império Otomano e a Bulgária. O Governo Provisório de Kerensky não retirou o país da guerra. Uma das razões que levaram as mulheres operárias russas a concretizar o movimento revolucionário de fevereiro de 1917 foi o fracasso crescente da Rússia na guerra; elas queriam a volta aos lares de seus pais, maridos, irmãos e filhos, que estavam morrendo aos milhares no campo de batalha. Lenin, ao assumir a Presidência do país, em novembro de 1917, advogava a saída imediata da Rússia da guerra. Então, foi assinado o Tratado de Paz de Brest-Litovsk, em 03/3/1918, com o qual a Rússia se retirou da guerra; mas, pelos termos deste Tratado, a Rússia perdeu parte de "seu" território. A parte "perdida" eram o território da Bielorrússia, ou Bielo-Rússia, ou Belarus, ou Rússia Branca e, parte do território da Polônia, árias de territórios nacionais vizinhos que haviam sido ocupados e incorporados pela Rússia czarista. Lenin, mesmo com a paz, considerou esta uma "paz vergonhosa", em face da referida “perda” territorial. A Delegação da Rússia a Brest-Litovsk, para negociar e assinar o Tratado, foi constituída dos seguintes líderes revolucionários russos: Trotsky (que, além de ser o comandante do Exército Vermelho, no governo de Lenin, estava como responsável pelas Relações Exteriores do estado russo), Kamenev, Anastasia Bitzenko, Lipskiy, Stucka, Loffe e Marakhan. A I Guerra Mundial terminou oficialmente em 11/11/1918;

- A cisão de socialistas, sociais-democratas e trabalhistas, de um lado, e comunistas, do outro:

Como vimos, até então, encontravam-se todos esses agrupamentos políticos e ideológicos juntos na II Internacional - Internacional Operária e Socialista. A cisão ocorreu em decorrência de divergências ideológicas, estratégicas, táticas e programáticas e, na prática, esteve relacionada aos seguintes fatos:

a) A transformação do Partido Operário Social Democrático Russo-POSDR em Partido Comunista, em 01/01/1912 (cf. acima), em decorrência da decisão do Politiburo (grupo dirigente) do Partido, do qual Lenin fazia parte e no qual tinha grande liderança. Essa resolução do Politiburo contrariou a decisão do Congresso do POSDR, então reunido, que rejeitara, pela maioria dos congressistas, essa proposta que Lenin fizera em sessão plenária; Lenin e os dirigentes do Partido político (Politiburo), embora tenham sido minoritários no plenário do Congresso, consideraram-se "bolcheviques", ou seja, maioria, e passaram a denominar "menchevique", ou seja, minoria, a maioria dos participantes do Congresso (sociais-democratas) contrária à proposta. Esta tática de ação política de Lenin lembra claramente a "novilíngua" e o "duplipensar" do romance "1984" de George Orwell! Esta forma de agir politicamente, impondo ao coletivo uma decisão tomada por um pequeno grupo de pessoas sob a liderança de um dirigente autoritário, inaugurou uma norma decisória formulada por Lenin, que veio a prevalecer nos Partidos Comunistas de todo o Mundo e que passou a ser nominada "centralismo democrático" (de meu ponto de vista, em essência, antidemocrático!); nesse sistema decisório, as resoluções centralizadas dos dirigentes partidários se tornam "tarefas" a serem postas em prática pelos membros dos PCs., em todos os níveis hierárquicos até as "bases". Elas, as resoluções, emanadas do(s) dirigente(s) maior(es) do Partido, devem ser cumpridas sem questionamentos, ficando os militantes sujeitos às "críticas" quase sempre autoritárias, que os levam às "autocríticas" e mesmo a procedimentos disciplinares. Este sistema era (e é) incompatível com a maneira como funcionam os Partidos Socialistas e os Sociais-Democratas;

b) A derrubada do social-democrata Kerensky do governo russo pelos comunistas, mediante um golpe, em 07/11/1917 (cf. acima); Alexander F. Kerensky (04/5/1881 - 11/6/1970), advogado e, depois, militar voluntário, com sua deposição pela revolução bolchevista/soviética/comunista, em novembro de 1917, fugiu para a França, onde viveu alguns anos, mudando-se, em seguida, para os Estados Unidos, onde, vítima de câncer, veio a falecer, em Nova York, em 07/11/1970, aos 89 anos de idade.

c) A criação do Komintern-Internacional Comunista (III Internacional), na Rússia, em 1919, por iniciativa de Lenin e do Partido Comunista da Rússia. A Internacional Socialista - II Internacional continuou existindo, congregando os Partidos Socialistas, Sociais-Democratas e Trabalhistas.

d) Os membros do Partido Comunista consideravam ser a sua agremiação partidária a guardiã e a concretizadora, na prática, do Socialismo Científico, e diziam que a ideologia dos Partidos Socialistas era o Socialismo Utópico. Os socialistas dos Partidos Socialistas não se consideravam (nem se consideram) utópicos, e sua linha doutrinária era (como continua sendo) o socialismo democrático. O que a história mostrou foi a utopia da experiência comunista na URSS, atestada pelo seu debacle.

- A instauração do sistema comunista na Rússia / A fundação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas-URSS:

a) Tendo como marco inicial a revolução russa de outubro de 1917, foi criado o primeiro estado comunista na história, ou, diga-se, o primeiro estado comunista instaurado após a emergência do pensamento marxista com seu fundador, Karl Marx, no Século XIX. A URSS foi fundada em 30/12/1922, sendo seu primeiro presidente, V. Lenin.

b) A Rússia fez a revolução comunista e manteve a dominação sobre nações suas vizinhas, que já se encontravam sob seu domínio ao longo da monarquia dos czares - a então dita Grande Rússia. Este fato explica o motivo porque a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas-URSS continha em seu nome a expressão "união das repúblicas" (cf. vimos na Parte I desta série). “União”, porque o novo Estado se constituiu de um conglomerado de estados-nações, porém, sob o domínio de um desses Estados, a Rússia, como já vinha acontecendo na época dos czares. “Repúblicas”, evidentemente, porque todos esses estados-nações eram organizados sob regime republicano, inclusive a Rússia, depois da queda da monarquia czarista.

c) Passou a chamar-se "socialista" sob o pressuposto de que esse estado, assim constituído, encontrava-se no transcurso de uma fase revolucionária transitória, que conduziria, afinal, à vivência do "sistema comunista", considerado a etapa final e definitiva do processo socioeconômico evolutivo da sociedade humana! Seria o "fim da história", ou o início da "verdadeira" história do povo (para não dizer, da concretização da então pretendida utopia do "Paraíso na Terra"). Para tal, era necessária a formação do "novo homem", um ser forjado exclusiva e totalmente no interior do sistema em desenvolvimento, sem qualquer influência do "mundo capitalista e burguês", pois este poderia contaminá-lo, conspurcando a "pureza" de sua constituição específica. O conjunto desses novos seres humanos formaria a nova sociedade, comunista. Daí porque foram estabelecidas as medidas administrativas, militares e policiais, pelos dirigentes do Estado e do PCUS, tentando isolar inteiramente o povo e o território da URSS do resto do Mundo, ou seja, foi criada a chamada e simbólica "cortina de ferro". Evidentemente este esforço de isolamento foi ineficaz ante os avanços das novas técnicas de comunicação surgidas no mundo com a revolução tecnológica. Esta tentativa de isolamento, que se tornou contraproducente, foi um dos aspectos do projeto - utópico - que os dirigentes do PCUS procuravam tornar realidade concreta.

d) A URSS também se intitulava "soviética" porque os revolucionários de outubro de 1917 incorporaram as organizações populares chamadas "soviets", ao primeiro Estado comunista. Os soviets eram organizações populares pré-existentes na sociedade russa. Os soviets (cf. vimos na Parte I deste estudo) eram entidades reivindicativas em que o povo sofrido da Rússia se organizava, em face da exploração a que era submetido, no sistema semifeudal prevalecente no longo período monárquico czarista. Os soviets eram constituídos de operários urbanos, camponeses, artesãos, funcionários públicos e soldados. Como se sabe, o líder revolucionário Trotsky havia se tornado o dirigente do grande soviet de Petrogrado. Com esta incorporação, o nome: União das Repúblicas Socialistas Soviéticas - URSS.

e) A Rússia czarista, apesar de seus grandes artistas, escritores, compositores, pintores, nos primeiros anos do Século XX, ainda era um pais social e economicamente subdesenvolvido, com uma economia predominantemente agrária extensiva, pouco industrializada e se constituía em uma estrutura social com características que ainda mantinham traços dos tempos medievais, do sistema feudal. Marx jamais pensou na possibilidade de a revolução comunista se efetivar em um país com as singularidades da Rússia. Ele imaginava que esta revolução ocorreria em um país que estivesse no extremo mais avançado do desenvolvimento capitalista, onde a exploração do homem pelo homem, da classe operária pelos donos do capital, onde essa dominação desumana de classe sobre classe ocorresse nas formas mais exacerbadas, mais extremadas e violentas. Esta situação social levaria a classe operária, explorada, a se levantar na grande revolução dos oprimidos contra os opressores. No entanto, foi na Rússia que surgiu um líder da estirpe de Lenin, um intelectual revolucionário e teórico de grande liderança e um competente estrategista revolucionário. Lenin, ao lado de outros revolucionários comunistas, como Trotsky, adotaram uma estratégia que implicou no oportuno aproveitamento da esteira de agitação social e o estado de espírito revolucionário que estava presente em meio ao povo, condições psicossociais estas que foram instigadas pela revolução realizada pelas mulheres operárias em fevereiro de 1917 (não comunista). A revolução de fevereiro havia exibido o ânimo revolucionário em efervescência na sociedade russa, estado de mobilização e pressão social que criou as condições de agitação e de revolta que efetivamente produziram a queda do Poder do sistema imperial que era chefiado pelo czar Nicolau II. A essa ocorrência histórica se seguiu o assassinato pelos bolcheviques do ex-czar juntamente com sua família. Findo o czarismo, eleito pelo Congresso Nacional, assumiu o Poder Central da Rússia Kerensky, um político social-democrata, na linha ideológica e como decorrência da revolução de fevereiro (cf. acima).

f) Outra condição histórica propiciatória para a efetivação da revolução comunista, naquela oportunidade, foi também a fragilidade bélica em que se encontrava a Rússia na I Guerra Mundial, com a ocorrência da morte de milhares de russos.

Estavam criadas as condições revolucionárias objetivas para o assalto ao Palácio de Inverno, sede do governo, em Petrogrado, pelos políticos da extrema esquerda.

Foi neste contexto histórico que os revolucionários comunistas russos assomaram ao poder, derrubando o Governo Provisório (como vimos, de cunho social democrático, que assumira após a revolução de fevereiro), manipulando as organizações populares preexistentes denominadas soviets (cf. acima), e liderando o povo, em um grande levante popular, em outubro de 1917, em Petrogrado. Foi um fato histórico surpreendente e imprevisível do ponto de vista marxista.

Certamente, este contexto de atraso e estagnação social, econômico e político (neste último caso, p. ex., a ausência de liberdade), que foi forjado na Rússia, ao longo dos séculos, tem correlação com a forma de funcionamento que o estado soviético veio a assumir (cf. vimos) e, com os tipos humanos e personalidades de muitos dirigentes, suas formas de agir na gestão do governo da URSS, durante a assim assumida "ditadura do proletariado".

Para os teóricos e dirigentes do Partido Comunista, este partido era a "vanguarda da classe operária" e, por assim se considerar, seus dirigentes viam seu Partido como o autêntico condutor dessa classe na transformação da sociedade. Com a revolução comunista, a classe operária assomaria ao Poder. Mas, de fato, na Rússia-URSS, o Poder foi ocupado pelo Partido Comunista sob o pretexto ou com aquela convicção de que ele, o PC, era, fundamentalmente, a "vanguarda" da classe social dos trabalhadores. Eram os dirigentes do PCR/PCUS, enquanto tal, independentemente de serem ou não originários da classe operária - e quase sempre não o eram -, que, na ditadura instaurada, em verdade, detinham todo o poder em suas mãos.

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