Parasitismo e selvageria

Há expressões cuja criação tem o objetivo de confundir ou esconder, jamais de esclarecer a coisa, pessoa, relação ou situação a que se referem. É frequente serem construídas por termos em si mesmo incompatíveis. O adjetivo sempre se prestando a mais que qualificar o substantivo. Ao contrário, buscando criar na mente de quem as tem diante de si obscuridade impeditiva de chegar à compreensão exata do fenômeno referido. Quem se der o trabalho de analisar o conteúdo dessas expressões algum dia chegará à mesma conclusão a que cheguei.

Refiro-me, especificamente a dois adjetivos encontrados em autores preocupados em escrever sobre o capitalismo. De tão repetidas, as expressões acabaram por tornar-se patrimônio de todo leitor, desvinculando-se de quem as criou: capitalismo selvagem é uma; capitalismo parasitário é a outra. Por isso deve ser entendido o grau de desumanidade a que chegaram as práticas desse sistema econômico, predominante no Planeta. Nem todos os que topam com a primeira expressão se dão conta da absoluta impossibilidade de o capitalismo ser diferente. A selvageria embutida na frase de efeito perde o sentido, se forem levados a sério os valores que subjazem à forma de apropriação da riqueza que dá nome às relações capitalistas. Ao propor a competição sem limites e transformar o egoísmo em linha-mestra do espírito capitalista, deveriam os defensores de tais ideias assumir os riscos e consequências que elas sugerem. Um simples exercício comparativo bastaria para evidenciar a contradição: à competição opõe-se a solidariedade; o egoísmo contraria a cooperação e a colaboração. Onde se impõe o egoísmo e a competição permanente entre os membros de determinado grupo, se não na selva? Nesta, só é alcançado o equilíbrio quando deixada à natureza a luta pela sobrevivência. Daí a necessidade de o predador eliminar sua presa, naquilo que se conhece por cadeia alimentar. É da essência do capitalismo o caráter selvagem.

A outra expressão - capitalismo parasitário - que intitula livro de Baumann*, incide na mesma redundância. Quem se dê o trabalho de ler algo sobre o trabalho humano, seus resultados e a distribuição dos seus benefícios, certamente encontrará razões para ver quão redundante é a expressão. De tal sorte, que a médio e longo prazo o parasita acaba por matar o parasitado de que se alimenta. Quem sabe outra forma de praticar a cadeia alimentar...

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* BAUMANN, Z. Rio de Janeiro, Zahar Editores, 2010.

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