Pagando mico


Tem ocorrido muita coisa ridícula, em meio à tragédia anterior à pandemia. Se pensávamos que a reunião ministerial alcançou o clímax da ridicularia, estávamos absolutamente enganados. Não faltam outros momentos patéticos a corroer nossa imagem de povo alegre e dotado de brios, a um só tempo. A alegria que dia-a-dia vai-se tornando escassa, não bastasse isso, dissolve-se diante de ocorrências até impróprias, quando há uma tragédia que já levou 130 mil de nossos compatrícios. Em grande medida, o culto devotado à mentira se tem imiscuído no cotidiano dos brasileiros, que faz esquecer a muitos a postura exigida no exercício de certos cargos relevantes para toda a sociedade. Ainda agora, ninguém menos que o vice-Presidente da República, no qual se reconhecia certa discrição e ponderação, acha de se envolver em episódio que tem valor negativo para sua biografia. A pretexto de responder às críticas da política ambiental (se ela existe), o general Hamilton Mourão se prestou ao papel de partícipe de uma comédia bufa. Admitiu posar em companhia do execrável sinistro do Meio Ambiente, a soldo de uma entidade de segmento empresarial interessada em apagar com gasolina o incêndio generalizado que ameaça nossa flora e nossa fauna. Enquanto o pantanal e a Amazônia – para ficar apenas nestes exemplos mais constrangedores – ardem em chamas, a entidade divulgou documentário destinado a desdizer o que os fatos mostram. E, como a mentira tem pernas curtas, embora sejam sedutores os resultados que ela propicia aos mentirosos, colocou nas imagens da Amazônia exemplares de uma espécie animal inexistente nesse ecossistema. Pela primeira vez, o Mundo pode assistir à migração de uma espécie, em exercício virtual até então inédito. E alguns indivíduos da comunidade do mico leão-dourado deixaram a Mata atlântica e vieram dar uma volta na Amazônia. Quem pagou (aqui, no sentido literal, mas também no alegórico) o mico apressou-se em confessar. Digo, porque assisti na tela da televisão.

1 visualização0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

Se queres a paz, desarma-te!

Há mais de 17 séculos, o autor latino Publius Flavius Vegetius Renatus disse: si vis pax, para bellum. A isso corresponde o que modernamente chamamos paz romana. Nada mais, nada menos que a resolução

Ordem verbal

Os estudiosos da Psicologia são uns danados! Eles vão buscar no fundo mais profundo das pessoas a motivação de toda sorte de comportamento. Cada qual a seu modo e preferência, são eles os profissionai

O galho de cada um

Há quem diga não ser a vida mais que um espetáculo teatral, pelo que ela, apresentando-os, representa os sentimentos e inspirações que justificam a conduta dos membros da sociedade. Dizem os comportam

Arquitetado e Produzido por WebDesk. Para mais informações acesse: wbdsk.com

Todos os Direitos Reservados | Propriedade Intelectual de José Seráfico.