Pagando mico


Tem ocorrido muita coisa ridícula, em meio à tragédia anterior à pandemia. Se pensávamos que a reunião ministerial alcançou o clímax da ridicularia, estávamos absolutamente enganados. Não faltam outros momentos patéticos a corroer nossa imagem de povo alegre e dotado de brios, a um só tempo. A alegria que dia-a-dia vai-se tornando escassa, não bastasse isso, dissolve-se diante de ocorrências até impróprias, quando há uma tragédia que já levou 130 mil de nossos compatrícios. Em grande medida, o culto devotado à mentira se tem imiscuído no cotidiano dos brasileiros, que faz esquecer a muitos a postura exigida no exercício de certos cargos relevantes para toda a sociedade. Ainda agora, ninguém menos que o vice-Presidente da República, no qual se reconhecia certa discrição e ponderação, acha de se envolver em episódio que tem valor negativo para sua biografia. A pretexto de responder às críticas da política ambiental (se ela existe), o general Hamilton Mourão se prestou ao papel de partícipe de uma comédia bufa. Admitiu posar em companhia do execrável sinistro do Meio Ambiente, a soldo de uma entidade de segmento empresarial interessada em apagar com gasolina o incêndio generalizado que ameaça nossa flora e nossa fauna. Enquanto o pantanal e a Amazônia – para ficar apenas nestes exemplos mais constrangedores – ardem em chamas, a entidade divulgou documentário destinado a desdizer o que os fatos mostram. E, como a mentira tem pernas curtas, embora sejam sedutores os resultados que ela propicia aos mentirosos, colocou nas imagens da Amazônia exemplares de uma espécie animal inexistente nesse ecossistema. Pela primeira vez, o Mundo pode assistir à migração de uma espécie, em exercício virtual até então inédito. E alguns indivíduos da comunidade do mico leão-dourado deixaram a Mata atlântica e vieram dar uma volta na Amazônia. Quem pagou (aqui, no sentido literal, mas também no alegórico) o mico apressou-se em confessar. Digo, porque assisti na tela da televisão.

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