Pátria e Humanidade

Discordo dos que, em evidente simplificação, dizem ser o patriotismo o último reduto dos canalhas. Destes, encontram-se aos montes os que sequer conhecem a força do símbolo na sociedade. Outros há, que buscam mostrar conhecimento de causa. Acabam revelando que não o têm. O próprio conceito de pátria e qual seu significado aposto não preocupar grande parte dos autoproclamados defensores de uma coisa e da outra – o lugar de nascimento e os símbolos que pretextamos representativos de nosso amor e respeito àquele lugar. Talvez isso ocorra por ser eu de um tempo em que a bandeira não era levada à rua na tentativa de misturar suas cores e seu significado com os maus propósitos deste ou daquele governo. Nem nos agredia saudar o “símbolo augusto da paz”, nas manhãs ensolaradas de nosso grupo escolar. Pública a escola, como o era a bandeira. Uma, ainda não submersa pela transformação da educação em simples objeto de troca, no mercado avassalador. Outra, prometendo crescente processo social no qual a solidariedade e o bem-estar comum tivessem a força do objetivo perseguido. Essa a minha leitura do lema positivista, pese sobretudo a reconceituação do outro termo, devidamente ajustado a um Estado democrático de Direito. Ordem, portanto, enquadrada nos dispositivos constitucionais, nenhum deles distante ou indiferente ao determinado no artigo 3°. Fora disso, soa patriotismo de ocasião o abuso (ab+uso) do símbolo augusto, ao mesmo tempo em que o vemos ilustrar camisetas e outras peças, ao lado de outros pavilhões nacionais. Não é menor a ilustração da farsa, quando qualquer de nós mas especialmente os que reivindicam a condição de patriota, rende homenagem a bandeira de outra nação.

Imagino o sofrimento imposto aos que, agredidos por se negarem a participar da farsa patriótica, chegam ao gesto extremo, uma espécie de suicídio cívico, a queima da bandeira. Não porque neguem apreço ao símbolo, mas por vê-lo usado para contrapor-se ao simbolismo e aos propósitos que o terão inspirado. Todos podemos ver, nos veículos e armas usados pela repressão - em todas as partes do Mundo - o augusto símbolo. Como admitir o uso de um avião identificado com o estandarte auriverde, para transportar drogas? Ainda mais, integrando comitiva oficial. Serão patriotas os que toleram tal situação? Ou, neste caso específico, terão sido patriotas os espanhóis que condenaram o traficante? Serão patriotas as declarações que prometem entregar o controle de atividades e locais estratégicos a outras nações? É patriota quem deseja explodir prédios públicos ou matar irmãos, em nome de um deus e uma pátria qualquer que seja? E a mentira sistemática, qual o pálio patriótico que a abriga? Nem menciono exemplos históricos, pela certeza de que não basta ter a notícia da sala de aula. A memória nem sempre retém o que se pensava ter aprendido. Mesmo sabendo do caráter seletivo da memória . Lorde Byron e Garibaldi, a seu tempo, souberam mostrar o sentido de Pátria. Ao mesmo tempo o cerne do que se chama Humanidade.

1 visualização

Posts recentes

Ver tudo

As eleições e as análises

Aos poucos, vão aparecendo nos media análises menos inconsistentes em torno do resultado eleitoral. Ainda que persistam certos equívocos (talvez não apenas só isso), a percepção dos observadores se va

Secula seculorum

Secula seculorum Até que enfim, encontro dois textos esclarecedores, em relação à eleição municipal deste ano. A jornalista Tereza Cruvinel e o professor Aldo Fornazieri são os autores, para cujo conh

Revolução à francesa

Ruas próximas á praça da Bastilha, em Paris, transformaram-se em campo de batalha na tarde do último sábado. A manifestação popular tentava impedir a imposição de lei de proteção das forças policiais

Arquitetado e Produzido por WebDesk. Para mais informações acesse: wbdsk.com

Todos os Direitos Reservados | Propriedade Intelectual de José Seráfico.