Outros tempos

Durante a ditadura iniciada em 1964, o vazio partidário engessado no bipartidarismo levou à mobilização da sociedade civil através de outros coletivos. Fenômeno agravado nas últimas décadas, a falência da representatividade popular dá mostras de expansão e aprofundamento. Estimulada pelo interesse de permanência no poder pouco afeita à democracia, a crescente distância entre o eleitor e seu suposto representante gerou formas cada dia mais perversas e autoritárias. Melhor exemplo que a existência - pior, a influência - do Centrão não existe. Antes, a mobilização reuniu entidades respeitáveis e representativas do povo, não somente do indivíduo considerado detentor de um voto. Tem-se a impressão de que ainda não prevalecia o conceito de consumidor, mas o de cidadão. Isso pode explicar como organizações culturais, profissionais e religiosas, para ficar nas mais influentes, tomavam a si a tarefa que os partidos políticos viam cerceada a seus filiados, mesmo - talvez, sobretudo - os titulares de mandato popular.

Uma das organizações mais ponderáveis, então, era a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Feita a redemocratização, a CNBB teve atuação destacada quando se tratou de apurar e relatar as desumanidades cometidas naquele trevoso período de nossa História. Livros e documentos elaborados, promovidos, coparticipados pela CNBB e suas pastorais registraram a lesão dos direitos humanos e sociais e a violência que se abateu sobre a nação.

Isso tudo impede reagir com, surpresa à Carta ao povo de Deus, que 152 bispos, arcebispos e bispos eméritos da Igreja divulgaram, após o assentimento do Conselho maior da Conferência dos Bispos brasileiros. A transcrição de parte do importante e contundente documento se impõe, tanto por sua oportunidade, quanto pelo que tem de convidativo. A Ordem dos Advogados do Brasil, a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e os sucessores do pastor presbiteriano James Wright e do rabino Henry Sobel, pelo menos esses podem sentir-se animados a engrossar o caldo que a CNBB pôs a ferver. Eis alguns trechos da Carta ao Povo Brasileiro:

"Analisando o cenário político, sem paixões, percebemos claramente a incapacidade e inabilidade do Governo Federal em enfrentar essas crises".... "Assistimos sistematicamente a discursos anticientíficos, que tentam naturalizar ou normalizar o flagelo dos milhares de mortes pela COVID-19, como fruto do acaso ou do castigo divino".

Não faltam palavas de denúncia à crise, quando a carta se refere à realidade nacional, nos seguintes termos: " ...caos sócio-econômico que se avizinha, com o desemprego e a carestia que são projetados para os próximos meses, e os conchavos políticos que visam à manutenção do poder a qualquer preço".


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