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Outra república


Quando publiquei A república dos anões (Gráfica Lorena, 1995), pensava termos chegado ao fim do poço. Quanto me enganei! As páginas constituíram, na percepção de Jefferson Peres, o prefaciador, um romance de folhetim. A narrativa gira em torno das atividades de congressistas no escândalo do orçamento. Nada além de uma trama recorrente, desenvolvida em cenário costumeiro. Não dispensava, sequer, registro de crime de homicídio, praticado por assessor importante do Congresso. Nestes malfadados dias de 2022, enquanto não foram derramadas todas as lágrimas pelas quase 670.000 mortes causadas pela covid-19 e as ações e omissões relacionadas ao vírus, outro é o qualificativo dado à forma de governo. Aos poucos, a aliança formada em Curitiba para enxovalhar o Direito e o poder Judiciário vai-se desfazendo. O desmascaramento do chefe da república de Curitiba ganhou dimensão internacional, com a ratificação da ONU à condenação do conluio: o magistrado, sinistro da Justiça, empregado de empresa estrangeira envolvida em atos apurados por ele e sua grei e candidato à Presidência da República do Estado Democrático de Direito Brasil (tudo agora na condição de EX) enseja atualizar o nome. A mais recente denominação ajusta-se à conduta de inúmeros agentes públicos, sem que lhes falte o apoio de outros, anões também, se medidos segundo os padrões de decência, honestidade, respeito à democracia e ajustamento ao ordenamento jurídico nacional. República dos marginais é o nome que se tem lido. Impossível apagar os fatos que testemunhamos, resta-nos encontrar meios de, pelo menos, deixá-los explicados aos nossos pósteros. Impedir a repetição da censura que jogou para baixo do tapete, por até um século, alguns dos crimes já cometidos, será a primeira tarefa. A segunda, eliminar a probabilidade de assuntos do interesse dos cidadãos serem sepultados. O que significa deixar aos celerados uma única e abjeta alegria: festejar os já mortos e os que ainda morrerão - pela covid-19, pela queima de arquivos ou por"acidentes". Até criarmos uma outra e verdadeira república.

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nós nunca tivemos o espírito republicano inserido nos corações e mentes dos nacionais.

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