Os párias e seus páramos

Deu-se para ler e ouvir que o Brasil foi posto na situação de pária. Pária do Mundo. Frequentes têm sido os pronunciamentos, comentários, artigos e entrevistas que atribuem tal condição a uma nação que há bem pouco tempo se credenciava como um dos Estados mais influentes no cenário internacional. Não era só o tamanho da nossa economia que despertava o respeito, a estima e o prestígio do País no exterior. Havia mais a justificar tão boa imagem. A criatividade muitas vezes reduzida à mera produção de saídas pouco meritórias, de que o jeitinho brasileiro era a tradução, também era reconhecida na produção artística. Na ciência não vinha sendo diferente, como não o era na agricultura, na educação, na tecnologia. Aí estão a Petrobrás, a Embraer, a produção de proteínas, a literatura, a música e tantas outras atividades que construíram - e não sem percalços e dificuldades, a boa imagem de que o País desfrutava. Sempre que se mencionava, lá fora, de onde procedíamos, no mínimo éramos levados a alguns minutos de conversa com taxistas, servidores de hotéis e restaurantes, lojistas e vendedores, eventualmente algum companheiro de fila em museus e casas de espetáculos, que isso existe em toda parte do Mundo. Hoje, o que se sabe estar sendo dito a respeito de nossa nação, antes mesmo de indignar-nos, causa-nos vergonha. Já não somos levados a sério, embora minoritária a parcela dos brasileiros responsáveis por tão lamentável consideração. Mesmo reduzido em seu número, o contingente dos que construíram a péssima imagem do Brasil é quem oficialmente o representa. Mesmo países aos quais os nossos governantes tentam mostrar reverência, submissão e obediência nos desprezam. À prestação de continência à bandeira norte-americana, o Presidente Donald Trump responde com gestos de absoluta indiferença. Algo como a frase um dia proferida por Groucho Marx, aplicada às relações entre países e pessoas: não seria capaz de associar-me a uma entidade que me aceita como sócio. Se não se pode encontrar qualquer semelhança entre Trump e a maioria dos governantes de outras nações respeitáveis - e por isso mesmo - é fácil compreender porque descemos em ritmo de ladeira, nas relações com os países europeus. O resultado é a perda de oportunidades que ninguém garante ainda estejam reservadas, na inserção inevitável à Terra globalizada. Reconquistar a posição perdida não será tarefa muito fácil. Também não é impossível. Desde que não tragamos conosco a síndrome do excluído, sobretudo se conformado, acostumado e feliz com a própria exclusão.

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