Os fora-da-lei

Na adolescência, o cinema era das artes que mais atraiam minha atenção. Agradava-me ver nas telas os filmes água-com-açúcar produzidos por Holywood, tanto quanto gargalhar com as patuscadas de Ankito, Oscarito e Grande Otelo. Também grandes produções, como Ben-Hur, Spartacus e Quo vadis ? chamavam-me às salas de projeção. Isso não me afastava de outros filmes, alguns deles propagadores do que mais tarde saberíamos tratar-se de práticas genocidas. Aí então, me vêm a lembrança películas (era assim que os entendidos chamavam aos filmes anunciados ou comentados) as cenas em que Jeff Chandler esforçava-se por matar os sioux, os apaches ou os moicanos. Havia, ainda, as cenas de faroeste, onde o bem sempre vencia o mal. Sendo que o bem e o mal eram conceituados, escolhidos e impostos sem qualquer consideração de ordem ética ou moral. Índios eram sempre do mal. Os xerifes truculentos e heróis macunaímicos (pelo nenhum caráter de que eram portadores) representavam o bem. Lá íamos nós para o cinema, de lá voltando com certa alegria. Afinal, não sobrava um só dos fora-da-lei que os xerifes e cavaleiros trajados com as roupas da (in)justiça haviam abatido naqueles poucos minutos metidos em uma sala escura, os olhos grudados na superfície branca diante de jovens, crianças e idosos.

O mundo avançou. Com ele, avançaram as práticas dos negócios. A tecnologia diariamente dá um passo, na direção do que Marshall Mac-Luhan chamou aldeia global. E a noção de fora-da-lei parece ter perdido todo o sentido que as máquinas projetavam. Fê-la dissolver-se na generalidade e abrangência, tornando práticas semelhantes às combatidas pelos justiceiros de ontem acontecimentos às vezes até protegidos pelas leis. Como um ex-servidor do Estado utilizar-se de passaporte falso para fugir ao encontro com a Polícia e a Justiça. Ou seu sucessor mentir deslavadamente, porque urge subir mais um degrau em sua carreira profissional. Ou, ainda, regras mínimas de convivência civilizada serem desafiadas pelos que dirigem uma nação de mais de 210 milhões de habitantes.

A transformação de fora-da-lei em cidadãos do bem é obra de quê - da globalização inexorável ou das relações sociais e de produção que aproximam as nações umas das outras?

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