Os convergentes

De alguém que não esconde seu amor pela violência, faz do culto à tortura e rende homenagem a seus agentes não se podem esperar senão palavras, decisões e ações como as vem produzindo e divulgando o ex-capitão Jair Bolsonaro. Não poderia surpreender qualquer pessoa minimamente informada a reação do Presidente à suspensão da pesquisa da vacina contra a covid-19 e ao anúncio do Presidente eleito dos Estados Unidos da América do Norte, em relação à proteção da Amazónia. Antes de chegar ao Planalto, Bolsonaro envolveu-se em atos que o levaram a julgamento pela Justiça Militar. O desfecho desse processo, até hoje mantido sob as sombras, excluiu o acusado de inspirar e liderar uma ação terrorista das Forças Armadas. Depois disso, e sempre protestando ojeriza à Política e aos políticos, o atual Presidente fez longa carreira cevada pelo eleitorado do Rio de Janeiro. Depois de exercer mandato de vereador, Bolsonaro exerceu mandatos consecutivos de deputado federal. Notabilizou-se (esta expressão constituindo um paradoxo) por não ultrapassar, na Câmara, a condição de integrante do chamado baixo clero. No exercício do cargo mais alto do Poder Executivo, o Presidente não tem feito outra coisa que revele a mínima alteração em sua visão de mundo e compreensão, não apenas dos problemas do País, como também das responsabilidades que lhe cabem. O resultado é o que se tem visto: permanente acirramento da polarização, disseminação do ódio e sua incorporação às práticas governamentais, estímulo à violência contra as minorias, bravatas e declarações ridículas e inconsequentes. Isso tudo, juntado aos números da economia e ao desprestígio da Ciência, da decência e da austeridade compõe um cenário inimaginável. Tal surrealismo, contudo, não decorre apenas das más qualidades encerradas na personalidade do Presidente, mas do absurdo de a direita brasileira não dispor aparentemente de nome mais credenciado. Mesmo João Doria Filho, com todas as suspeitas que contra ele pesam, não se assemelha ou aproxima de Bolsonaro, a não ser quanto ao objetivo final, a liquidação do Estado e a anulação de políticas públicas redutoras da desigualdade. Não causa espanto, por isso, que Paulo Guedes seja mantido, ainda que frustrado em seu propósito de entregar (o verbo é do próprio sinistro da Economia) todos os setores a especuladores privados.

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