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Os amantes e as amantes na literatura, na história e na hipocrisia*



As amantes agora foram tiradas do seu sossego milenar pelas reações de algumas almas puras à fala do presidente Lula, que usou como exemplo essas personagens da história e da literatura universal para falar do seu amor pela democracia.

O olhar moralista, e sempre hipócrita, deforma toda realidade, lhe tirando beleza, poesia e inteligência. Consegue ver erro até mesmo naquele que ama.

Mas o que seria da literatura sem uma Anna Keriênina e sua paixão proibida pelo conde Vrónski, personagens de Liev Tolstói, cuja obra trata de drama familiar, casamento e a decadência da aristocracia russa na segunda metade do século XIX.

No mesmo período histórico, Flaubert inquietou a sociedade parisiense com Madame Bovary, o que lhe rendeu um processo por ofensa à moral e à religião. A infeliz Emma não via possibilidades de vida no seu casamento e procura nos amantes o afago não encontrado no marido.

Na sua defesa perante o tribunal, a frase famosa do escritor realista: Emma Bovary c'est moi" (Emma Bovary sou eu).

Todos nós somos um pouco Emma Bovary, nem sempre nas possibilidades de um outro amor, mas na busca pela felicidade romantizada na literatura, que tanto alimentou seus sonhos.

A literatura nunca virou as costas para a realidade, bem diferente das instituições morais e religiosas, sempre alertas para a defesa dos bons costumes, apesar das suas práticas inconfessáveis.

E foi assim que Machado de Assis nos apresentou Capitu e as dúvidas de Bentinho, compartilhadas por nós, leitores, até hoje.

A vida continua seguindo e nossos encontros com a história também não são furtivos, como aquele e aquela amante revelados nos belos romances.

Frida Kahlo e Trotsky se tornaram amantes.

William Shakespeare e o figurinista William Hart foram apaixonados, mesmo com o autor casado com a atriz Anne Hathaway, com quem teve um filho.

Rainha Victoria e a Princesa Diana não foram as únicas realezas a ficarem famosas. Seus amantes também viraram personagens históricos.

Barbara Villiers se tornou, em 1660, amante do rei Carlos II de Inglaterra e teve destacada atuação no seu reinado, fazendo parte do Conselho Real.

Agnés Sorel saiu de dama de companhia da esposa de Carlos VII para ser sua amante, em 1444. Tiveram três filhas.

Madame de Pompadour encantou Luís XV, que nomeou o marido da amante embaixador nos cafundós do judas.

E assim literatura e história foram se encontrando em castelos, bailes, cidades e vilas, revelando ao mundo que o impossível existe fora dos lençóis da hipocrisia e do falso purismo.

Tanto na literatura como na história, homens e mulheres escolheram uma vida além do casamento. Isso é real. Ainda que alguns insistam em defender apenas vida depois da morte, o que é improvável.

O presidente Lula apenas viajou no tempo da história e da literatura ao colocar no seu discurso uma personagem presente nos belos dramas e romances da vida.


Lúcio Carril

Sociólogo

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