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Operadores e inteligência

No curso de Direito aprendi sobre o princípio do contraditório. Aprendi, também, que as democracias se nutrem, substancialmente, da observação desse princípio. Algo como a tradução mais simples da frase que celebrizou Voltaire: posso discordar totalmente do que dizes, mas daria a vida em defesa do direito de o dizeres. Óbvio que estudei quando as faculdades de Direito preparavam profissionais aptos ao serviço da distribuição da Justiça (não havia o delivery, ainda), seja como advogados, como promotores e procuradores, ou magistrados, professores e consultores. Também era um tempo em que se mencionavam grandes doutrinadores e intérpretes não apenas das normas, como também do pensamento jurídico. Ouvia-se falar de Cícero, como se ouvia falar do Código Napoleônico, das leis de Hamurabi, de Cesare Beccaria, de Hans Kelsen e Ihering, dentre tantos outros, em nada parecidos com Olavo de Carvalho e Richard Wasseff. Diante do que testemunho, torna-se compreensível o uso, até com certa imbecil arrogância, da expressão operador do Direito. Nada tenho contra os que acionam as máquinas, porque tenham dedos e isso é necessário. Como eles mesmos, operadores de máquinas, o são. Cada qual tem suas aptidões, de acordo com a área que escolheu para ganhar a vida. Às vezes, mais que isso, porque ganhar a vida hoje envolve menos a Vida que o Dinheiro, que São Basílio afirmava (e lá se vão pelo menos 16 séculos) ser o esterco da sociedade. Como de esterco não entendo, não entendo também o que leva 1.400 pessoas que se dizem advogados/as (em miúdos: passaram por um exame da Ordem) a emprestar, em nota oficial, apoio à figura mais anti-jurídica (dito assim para não enveredar pela senda tão pisada por ela e seus sequazes) de que o Brasil pode dar notícia, 522 anos após a chegada dos europeus. Não se tratar de pessoas inscritas na OAB é o mínimo de que se pode suspeitar. Que estiveram em uma escola de Direito é outra coisa a verificar. Se aprenderam alguma coisa lá ouvida, podemos pôr em dúvida, tamanha a incongruência entre a formação alegada e os valores a que emprestam solidariedade. O máximo em que podemos, sem necessidade de qualquer outra prova, concluir, é tratar-se de operadores do Direito, no que mais exato essa designação significa. Na Medicina, quase todo operador necessita de um anestesista. Isso aproxima uns e outros. Anestesiada, a inteligência humana chega a cometer estupros contra a mínima dose de discernimento. No caso de se poder falar de inteligência.

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