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Onde a surpresa?

Aparentam surpresa, mais que indignação, âncoras de telejornais de quase todas as maiores redes de televisão. Quando eles apresentam números ligados à tragédia brasileira, dão a impressão de tratar de problemas novos, não de registros recorrentes, como as enfermidades crônicas a que já parecemos irreversivelmente ajustados. Ainda agora, ocupam amplo espaço do noticiário as invasões em territórios indígenas, a devastação florestal, a violência no campo, o assassinato dos pobres. Todos eles, mas não só eles, fenômenos com cifras em ascendência. O número de indígenas ou seus defensores eliminados cresceu; ampliou-se a área das terras desflorestadas; os camponeses continuam a ser sacrificados. Enfim, o prometido e anunciado desembaraço com que a boiada passaria vai-se concretizando. Não se veja equívoco nas decisões governamentais que promoveram tais resultados. Ao contrário, estamos diante de ações cuidadosamente articuladas e propositalmente concebidas. Cada discurso do Presidente da República confirma as intenções tantas vezes por ele proclamadas, de que uma das mais notáveis diz respeito à eliminação de uns 30.000 brasileiros. A obsessão por armas e a pretensão de pô-las nas mãos de cada cidadão autoriza ver na violência nada mais que resultado desejado. Também reduz a zero qualquer sensação de surpresa. Tomar cada uma dessas decisões e o conjunto delas como algo surpreendente não ajuda a compreender o momento trágico por que passamos. (Quase escrevia todos, mas não é o caso. A pobreza de uns corresponde à acumulação de outros; a morte de uns, por doença, bala, fome ou o que seja, a outros regala...e por aí vai...). Talvez, ignorante em assuntos que tais, seria demasiada ousadia aconselhar os que fazem televisão e dela ganham seu sustento. Além de tornarem-se celebridades. Não custa, porém, pedir-lhes que recomendem aos apresentadores e âncoras de telejornais ou matéria informativa esparsa, aparição mais adequada à veracidade da informação. Não pode ser surpresa o cenário cotidiano, a não ser quando ele traz consigo algo que anuncia mudança, por pequena que seja. Tudo o mais é trivial, repetitivo à exaustão.

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