Ondas em maré macabra


Disse-o bem o jornalista que chamou “onda Bolsonaro” ao fenômeno que intranquiliza a maioria do povo brasileiro. A expressão é precisa, para caracterizar a mobilização da qual decorreu a eleição de figuras no mínimo desajustadas ao modelo democrático. Anunciadas como renovadoras dos costumes políticos, econômicos e sociais, não têm tais figuras menos que contradito tudo quanto suas poderosas e bem irrigadas redes (anti)sociais viralizaram – cabendo aqui o termo, pelo que de malévolo traz consigo. As trombetas anunciadoras, carregadas de mentiras, longe de encaminharem a nação por rumos inusitados, sequer conseguem ocultar a consolidação de práticas daninhas sob qualquer aspecto. Já não se trata mais apenas de combater a corrupção, eis que ela diariamente surge dos escombros do aparato de transparência falsamente reclamado pelos que se dizem honestos. Outras evidências não houvesse, bastaria compulsar o relatório do Tribunal de Contas da União, em derredor da prestação de contas do governo federal. Lá, pelo menos meia dúzia de ressalvas referem-se ao mau uso do dinheiro do contribuinte. Indo-se em frente, relações promíscuas com organizações criminosas, de que as milícias e, agora, o centrão, são exemplos contundentes - dizem muito. Andou-se tanto, para sequer ficarmos no mesmo lugar. Há, de fato, retrocesso.

A desesperança, quando transformada em ação, raramente se faz acompanhar de prudência, tolerância, sabedoria. Ao contrário, costuma apresentar-se carregada de ódio, preconceito e sede de sangue. Leva o ambiente social ao que o tsunami produz no ambiente natural. A predação atinge, indiscriminadamente, tudo quanto a Natureza nos deu e tudo quanto o homem construiu, muitas vezes a preço extremamente alto.

Todo dia sabe-se de algum fato ou relação capaz de desnudar os infames e macabros interesses subjacentes ao discurso ocultado em aparente indignação. Essa constatação diária, por sua evidência, acaba por dispensar até a existência de oposição política, eis que a força adversa vem dos subterrâneos ou submarinos, tal placas tectônicas que se desprendessem. E o exemplo de cima, sempre, de alguma forma e em alguma medida, gerará efeitos.

Como erupção vulcânica, deslizamento de terras, terremotos e maremotos, o tsunami social produzido por bípedes que se suporia inteligentes causam consequências indesejáveis. Hoje, a esperada destituição do governador Wilson Witzel do governo do Estado do Rio de Janeiro é o sopro mais assustador da onda arrasadora que se espraia por todo o País. Não é mais que o resultado da ação de uma liderança malsã, à qual se ligava até passado recentíssimo o modelo em que o ex-juiz e fuzileiro se inspira. Nem se hão de ignorar os motivos por que Wilson Witzel, tal água feita vinho, de rês apenas tresmalhada do rebanho, acabou por tornar-se alvo dos antigos e fraternos companheiros. Outras trombetas anunciam em torno de que sonhos se fizeram alianças hoje postas em risco, sendo o amor às armas correspondente à indiferença quanto à vida dos seres humanos a quem lhes caberia governar. Armas matam, às vezes mais que um vírus. Ou uma bactéria. Ou os vermes.

A onda atual, talvez vista pelos desatentos como simples marola, mostra-se tsunami social, político e econômico cujos efeitos em todo caso são indesejáveis. Se a gripezinha já de registra mais de quarenta mil vítimas, o deslocamento da placa tectônica que o impele promete não ficar atrás. Macabra, a maré em que nos metemos.

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