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Oficialização de uma escolha

Ao fim desta manhã participarei de evento confirmatório de decisão por mim tomada faz tempo. Da Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas receberei o título de cidadania, oficialização de escolha feita há mais de cinco décadas. No ano de 1966, desci no aeroporto de Ponta Pelada com a intenção de aqui passar quinze dias. Trazia-me a necessidade de acompanhar uma cunhada e as duas filhas que ela, Nazaré, e seu marido - meu irmão mais velho, João Baptista Filho, puseram no mundo. Logo circunstâncias políticas tornaram imprevisto o meu regresso a Belém do Pará, naquele período atribulado e infeliz de nossa história. Mal recebera o diploma de bacharel em Direito na cidade em que nasci, fato sobre o qual eu não tinha controle nem forma alguma de interferir impôs o adiamento do meu regresso a Belém. Cuidados de mãe e pai mandavam demorar-me na cidade tão apreciada por ele, mais alguns dias. Eles e eu não sabíamos quando. Tendo estado em Manaus em 1957, 1958, 1963, desde a primeira vez afeiçoei-me à cidade e à sua gente. Prosperara em mim a semente da simpatia e da admiração cultivadas pelo meu pai, abundante e ostensivo na revelação desses sentimentos em relação à capital do Amazonas e de amigos que aqui mantinha. Alguns, como meu pai, servidores dos SNAAP – Serviços de Navegação da Amazônia e de Administração do Porto do Pará. Outros, correligionários do Partido Social Democrático, o PSD, e de outras siglas. Meu pai rejeitava discriminação de qualquer natureza, em especial se isso dificultava ou tornava hostis as relações humanas. Não fosse assim, nossa casa e o gabinete dele, nos SNAAPP jamais teriam recebido visitas como as dos então deputados Danilo de Aguiar Corrêa e Sérgio Pessoa Neto; comandante Mílton Angelim, Maria de Nazaré Teixeira; agentes da autarquia sucessora da Port of Parah e da Amazon River, Ely Paixão e Silva e José do Vale. Não faltavam, nos animados relatos de suas vindas a Manaus, referências a Paulo Nery, Umberto Calderaro Filho, Danilo Duarte de Mattos Areosa e Geraldo Gomes. Dois meses aqui passados, cumprindo estágio no então 27°BC, aspirante ao oficialato do Exército não apenas fizeram-me constatar a justeza e a justiça dos juízos do meu pai. Mais ainda, quando fundamento sentimental desfez em mim qualquer intenção de regressar. Na tarde quente de um sábado de outubro meus olhos pousaram na pessoa com quem desde uma semana depois, 15 daquele mês de 1966 compartilho sonhos e enfrento procelas, Graça posta em minha vida. Pois foi naquele momento, em que o coração manifestou as razões de que fala Pascal, que me autoatribuí a cidadania que, por iniciativa do deputado Serafim Corrêa, a Assembleia Legislativa carimba e sacramenta. Ao generoso autor da honrosa distinção cabe aplicar o que não me cansa repetir: amigos são aquelas pessoas generosas que ignoram numerosos vícios de que nos sabemos portadores e atribuem e multiplicam em nós virtudes que sabemos não ostentar. Universitário, Serafim Corrêa presidiu o Centro Acadêmico de Economia e eu era professor da Faculdade de Estudos Sociais da UFAM. Lá se iniciou uma relação de amizade que nenhuma eventual divergência política ou de outra natureza é capaz de enfraquecer. Se, na aquisição oficial da cidadania cabe falar da figura de um padrinho, nada mais justo considerar-me um afilhado do ex-Presidente do Centro Acadêmico de Economia da Faculdade em que tentei contribuir para a educação superior no Estado do Amazonas. Não foi diferente minha intenção nas outras organizações a que emprestei meus esforços. Tomo a homenagem desta manhã, se não for demasiada imodéstia, como a confirmação, parcial pelo menos, de que não fui de todo mal na minha tentativa.



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