Obediência - a quê ou a quem?

Analistas e comentaristas políticos ocupam-se nos últimos dias, de especular a respeito da crise provocada pelo Presidente da República, envolvendo as Forças Armadas. Excluído dos quadros castrenses por conduta que o ex-Presidente Ernesto Geisel considerava má, o Chefe do Poder Executivo, volta e meia (ou meia-volta?)insiste em que as Forças Armadas são propriedade sua. Isso tem intrigado os analistas, pressurosos em criticar o Presidente, como se a má conduta dele nada tivesse a ver com a leniência e a cumplicidade que lhe tem sido dispensada. Desde o arranjo que evitou sua expulsão, até sua direta participação - ativa ou omissiva, durante toda a trajetória da pandemia em nosso país. Alguns desses intérpretes no mínimo desavisados, mal escondem seu desejo de ver o Presidente derrubado pelos mais afoitos de seus auxiliares da caserna, muitos dos quais ex-colegas e amigos diletos. Essa, porém, não é reivindicação unânime, eis que muitos dos que desejam ver o inominável fora do poder estão convencidos de que isso há de ser feito absolutamente sob o pálio da Constituição. É a esta, não ao Presidente, qualquer seja ele, devida a obediência das Forças Armadas. Pouco valor têm as proclamações contrárias ao Presidente, procedam de onde procederem, se não se tiver em vista esse particular. A Constituição diz que é o Chefe do Poder Executivo o comandante-em-chefe das Forças Armadas. Não há qualquer dispositivo, todavia, que submeta a Carta Magna à vontade do Chefe do Poder Executivo. Isso me faz lembrar episódio de que tomei parte, em conversa com um oficial do Exército, em março de 1964. Meu interlocutor, informado do meu entusiasmo pela Revolução Cubana, advertiu-me dos riscos e equívocos disso. Para rematar, disse-me, alto e bom som, que eu não me orientasse pelos homens que lideraram a Revolução de Sierra Maestra. Não precisei mais que lhe responder: nossa diferença, senhor, é que eu não sigo homens, mas ideias. Ele se comportou com dignidade, nada mais dizendo, nem perguntando.

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