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O vero e o verão

O exercício do poder, quando legítimo, é exigente de certos cuidados, decisões e ações reveladores dos propósitos dos que o detêm. Por isso, dos fundamentos da democracia moderna participa a transparência, querendo isso dizer da obrigação de os governantes deixarem tudo em pratos limpos. Ou seja, o uso do segredo é restrito a situações excepcionais, não segundo a discrição dos mandatários. Sim, porque os eleitos pelo voto popular e os por eles nomeados devem contas de todas as decisões e atos, ao povo, o verdadeiro mandante, em última análise. O distanciamento entre mandantes e mandatários compromete, ora mais, ora menos, o celebrado conceito da democracia - governo do povo, pelo povo e para o povo. Ainda agora, testemunho a euforia de certos setores sociais, porque a criação de novas empresas no País vem crescendo e batendo sucessivos recordes, desde 2021. Dentre elas, as microempresas, nesta categoria, em especial, as MEIs - microempresas individuais. Faz tempo, todavia, em que não encontro menção à durabilidade das MEIs. O tempo de duração do sonho experimentado por multidão de trabalhadores e alimentado por um tipo de ideologia parida pelo mercado. As últimas informações a respeito do assunto indicavam a mortalidade precoce desse tipo de negócio. Por isso, ao mesmo tempo em que se festejam os números relativos à constituição das MEIs, caberia deixar claras quantas, no período estudado, as microempresas individuais não passaram de um doce e fugaz sonho de verão. Expediente inserido no contexto mais amplo da precarização do trabalho, esse tipo de pejotização transfere aos trabalhadores os ônus e os riscos que aos capitalistas devem ser justa e legitimamente cobrados. O que é apresentado ao trabalhador, em linguagem solerte e enganosa, acaba quase sempre em um sonho de noite de verão. Não é SEBRAE?

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